Ato do Dia Internacional de Luta das Mulheres – São Paulo (SP) // (CC BY-SA) Fora do Eixo

Cândido Grzybowski
Sociólogo, do Ibase

Já se passaram mais de dois meses da execução da Marielle e do Anderson. Até agora, pouco sabemos sobre mandantes e executores. A única certeza é que Marielle foi eliminada pela ousadia de disputar o poder político abertamente e de defender direitos humanos e ideias libertárias pela perspectiva de mulher negra, lésbica e favelada. Isto num contexto de retrocessos institucionais democráticos ameaçadores, de ódio e intolerância escancarados, de segregação racial e territorial contra as grandes periferias, combinando violência policial estrutural e grupos armados de milicianos e traficantes. O fato é que Marielle é luz e inspiração que será difícil extinguir, pois virou alguém presente no ar que respiramos nos dizendo que resistir é preciso e que mudar é possível.
Pensando nisto tudo e tendo presente tanto as urgências – temos um calendário eleitoral desafiante logo aí – quanto as questões estratégicas de visões e propostas de transformação no longo prazo e de construção de caminhos até lá desde aqui e agora, tive a oportunidade de ler o magnífico texto de Julie Matthaei Feminism and Revolution: Looking Back, Looking Ahead”. O texto é um ensaio da autora para as discussões e trocas do mês de maio da rede GTI – Great Transition Initiative. Matthaei, feminista e intelectual, faz uma síntese crítica das grandes “ondas” do feminismo e aponta as contribuições para a emancipação feminina e para a transformação estrutural que necessitamos como humanidade. Ela cobre particularmente o desenvolvimento deste movimento desde os anos 1960. Trago aqui algumas destas ideias em homenagem à Marielle e em apoio aos movimentos feministas que têm muito a nos inspirar.
Em síntese, Julie começa afirmando que olhar criticamente a evolução do feminismo pode nos oferecer grandes lições para um movimento global de cidadãos. Ela usa o conceito do GTI – “global citizens movement” – que eu discordo e critico abertamente. Penso que para enfrentar a homogeneidade da globalização capitalista imposta ao mundo necessitamos de movimentos diversos em aliança estratégica, baseados na mais radical busca de igualdade com respeito à diversidade, como somos social e culturalmente e como é o próprio Planeta. Esta minha posição, porém, não diminui em nada a valiosa contribuição da análise de Julie.
Segundo ela, a primeira onda do feminismo foi dominada pelo direito civil e político do voto. Isto se estendeu para a grande questão dos direitos reprodutivos e de oportunidades iguais com homens como força de trabalho paga.  Na segunda onda, que começa aí pelos anos 1970, de acordo com Julie, se dá o encontro entre o feminismo e o marxismo. Claro, isto implicou numa radical crítica da própria infraestrutura da análise marxista em relação à opressão sobre as mulheres como trabalhadoras pelos capitalistas, deixando de lado a opressão sofrida por elas e praticada pelos homens na família e no cotidiano. Porém, a proximidade das feministas com o marxismo não levou, como afirmavam os homens de esquerda, a dividir a classe trabalhadora e a perpetuar, por isto, a exploração capitalista. O problema para as mulheres era não poder esperar para depois da revolução. Em sua aproximação com o marxismo “… nós vimos duas verdades: a libertação das mulheres não poderia ser atingida dentro do sistema capitalista, mas mulheres não poderiam esperar até depois da revolução socialista para lutar pela nossa libertação”, diz Julie (em tradução livre). Os homens são sexistas, mesmo os de esquerda. Isto levou as feministas a desenvolver uma visão abrangente do pós capitalismo, um sistema socialista-feminista de transformação do capitalismo. Mesmo sem ter adquirido consenso no feminismo, tal debate deu luz ao trabalho não pago do cuidado como aspecto central da vida econômica e social. Até aqui, duas questões centrais e incontornáveis haviam sido identificadas: o capitalismo e o patriarcalismo.
Porém – a vida e a história sempre nos surpreendem com poréns –, muito cedo as feministas da “segunda onda” se depararam com questões de identidade, vindas como desafio particularmente das mulheres negras contra o racismo. Havia racismo no interior do movimento. No processo, surgiram ainda as questões da homofilia no feminismo. Ambas as questões passaram a exigir reconhecimento nas teorias, práticas e plataformas do feminismo. Do mesmo modo surgiu a questão da relação entre opressão das mulheres e domínio da natureza, que levou à emergência dos debates sobre ecofeminismo. Na medida em que cresciam articulações e redes na diversidade de movimentos feministas, surgia também a grande questão da divisão do mundo entre Norte Global e Sul Global, com as questões do colonialismo, dependência e dominação, complexificando ainda mais a questão do feminismo. Enfim, “Identidades de raça, gênero, classe e nacionalidade se determinam mutualmente”, diz a autora.
O efeito disto tudo cria as bases para o que Julie Matthaei define com a “terceira onda do feminismo”, a política de solidariedade. “Feministas identificaram que nós não podemos unir as mulheres para lutar pela nossa libertação se nós não reconhecermos e buscarmos também a erradicação de outras formas de opressão que as mulheres enfrentam, tanto dentro do nosso movimento como na sociedade. Nós necessitamos chegar a uma política para além da que vê o feminismo como uma luta das mulheres contra a opressão por homens, para uma política de solidariedade que busca por acabar com todas as formas de opressão … de nossos movimentos e de nossa economia e sociedade” (grifo da autora, em tradução livre). Aqui parece até que autora vislumbrou a grande Marielle, emergindo na política do Rio e do Brasil, vinda da nossa periférica Maré, como síntese das múltiplas opressões que carregamos como sociedade.
Isto ocorreu, segundo Julie, dentro do movimento feminista e entre movimentos sociais, articulando pessoas através de todas as desigualdades. Neste contexto histórico, inspirada pela busca de formas de política de solidariedade, começa a surgir uma série de movimentos de novo tipo com três dimensões fundamentais: 1) formação de coalizões de subgrupos oprimidos, para além dos movimentos baseados na política de identidade; 2) foco nos conceitos sociais, práticas e instituições que criam e mantem desigualdades estruturais; 3) alargamento das coalizões para além do interno de subgrupos de um movimento, formando articulações entre movimentos sociais. Trata-se, segundo a definição da autora, de um momento novo de interconexão que permite superar os limites da política de identidade e a integrar numa política de solidariedade. O exemplo mais recente disto que a autora apresenta é a Marcha das Mulheres após a posse de Trump na presidência dos EUA.
Em sua provocadora análise, como um desafio, Julie desenvolve uma reflexão sobre como nos unir em torno a uma visão positiva do futuro e um modo de chegar lá. No modo como pessoalmente venho pensando e escrevendo, trata-se de traçar direções e caminhos de novos paradigmas. Ela propõe uma fusão entre política de solidariedade com a economia solidária, como modo de transformação do sistema a partir do aqui e agora. A autora junta o cuidado, em geral um trabalho fundamental para a vida e o Planeta – que no sistema capitalista cabe essencialmente às mulheres como tarefa privada, fora de mercado – com a ideia de uma nova economia baseada nos princípios que regem este tipo de trabalho: cooperação, equidade em todas as dimensões, democracia política e economia participativa, sustentabilidade, diversidade e pluralismo. Tudo para com uma perspectiva transformadora nas práticas econômicas e nas instituições da desigualdade para solidariedade. Em síntese, economia solidária é uma forma de exprimir solidariedade política na economia. Em suas palavras: “A economia solidária pode ser entendida como a inserção do tradicional trabalho feminino do cuidado pelos outros e outras no centro das estruturas de nossa economia dominada pelo masculino” (em tradução livre).
Acho que este texto pode estimular o debate no seio da sociedade civil, em nossas trincheiras de resistência, fazendo jus ao legado deixado pelo exemplo da combativa Marielle. Os sinais de esperança nestes tempos sombrios vêm das lutas feministas e seus múltiplos anti todas as desigualdades e opressões. As contradições são vistas de modo melhor e diagnosticadas com os conceitos, práticas e o vibrante engajamento das feministas.
Rio, 21/05/18

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Comunicacao Ibase

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