Opinião

Davos: a celebração do capitalismo globalizado

Manifestantes protestam contra o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante o Fòrum Econômico Mundial de Davos (Foto de Gustave Deghilage/Flickr)

Cândido Grzybowski
Sociólogo, do Ibase

De 23 a 26 de janeiro, nas montanhas da cidadezinha Suíça de Davos, ocorreu o Fórum Econômico Mundial. Foram uns 3.000 participantes, com destaque para os executivos das maiores corporações econômicas e financeiras no topo da globalização, em torno de 70 chefes de Estado e governo, dirigentes do FMI, Banco Mundial, ONU, Comissão Europeia e Banco Central Europeu, intelectuais, artistas, jornalistas e dirigentes de grandes ONGs internacionais. Enfim, um charmoso encontro dos “donos” do mundo, celebrando a retomada do crescimento e as boas expectativas para os próximos anos. A grande crise iniciada uma década atrás deu lugar à euforia de negócios em expansão.
O mundo está melhor? Categoricamente, não! Então, o que se celebra? O bom momento para negócios como sempre! Enquanto isto, não importa para onde a gente olhe desde que com senso de humanidade, zelo pelo bom viver para todas e todos e com a integridade da natureza. As sociedades vivem tragédias monumentais de desemprego, desigualdade social, exclusão, fome e falta de perspectivas, guerras e migrações forçadas, violências internas, intolerâncias e ódios, racismo e xenofobia, em escala que chega ao nível de desagregação do tecido social. A isto se soma o avanço assustador do processo de mudança climática, com eventos extremos de ondas e calor e frio, secas e inundações, incêndios gigantescos e aumento de tempestades, ciclones e furacões devastadores. Sim, os negócios voltam a prosperar, mas ao custo das grandes maiorias sociais e do bem comum, a Mãe Planeta Terra.
O “Partido de Davos” é um espaço de elites que creem na globalização e livre mercado . Mas a tarefa de construir o Fórum Econômico Mundial como seu templo de encontro e celebração foi um longo processo de disputa de hegemonia pelo capitalismo neoliberal globalizante. Sua origem remonta ao pós II Guerra Mundial. Os mais ortodoxos liberais não aceitaram o mundo bipolar que emergiu, dos blocos liderados por EUA e URSS. Naquele contexto, o acuado capitalismo teve que engolir o contrato da democracia social e o Estado do Bem Estar Social nos países dominantes capitalistas como condição de sobrevivência. Mas os recalcitrantes mais ortodoxos do livre mercado e do capitalismo sem regulação estatal formularam um projeto de conquista de hegemonia de longo prazo. Já nos anos 1950 constituíram a Sociedade Saint Pelerain, naqueles refúgios únicos montanhosos da Suíça para negócios, até hoje, por sinal. Isto deu origem ao Fórum Econômico Mundial em 1970, em Davos. Os anos 70 do século passado marcam exatamente o início da ascensão e conquista de hegemonia da visão e pensamento neoliberal, virando governo, com Reagan e Thatcher, e o decálogo do “Consenso de Washington” (BM e FMI), imposto como “pensamento único” após a derrocada da URSS e do bloco socialista em 1989.
Nada parecia ameaçar o “Partido de Davos”. Até o promissor projeto de União Europeia – a Europa foi o berço das duas grandes guerras mundiais do século passado – sucumbiu aos encantos da sereia neoliberal e da globalização, tornando-se ativo parceiro na empreitada de reconstruir o mundo do capitalismo. A isto se somou o Japão – derrotado virado aliado – e a China com o seu modo de capitalismo estatal como “inevitável” na construção do socialismo. O que não foi devidamente levado em conta, no então, foi que as sociedades humanas, de vida e não de negócios, são as que, em última análise, determinam o que o mundo pode ser e será. Os anos 90 e a primeira década dos anos 2000 foram tomados por resistências e insurgências de grande poder de mobilização e ação. Destacaram-se as grandes mobilizações em torno ao ciclo de Conferências da ONU dos anos 90 e a reações aos eventos do BM/FMI, da nascente OMC, do poderoso G-7, da Comissão Europeia rendida ao neoliberalismo, da proposta da ALCA entre nós latino-americanos. Todas estas mobilizações criaram o caldo para emergência do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, em 2001. O Fórum surgiu sob o slogan de “Outro Mundo é Possível”. E, claro, anti Davos, anti Fórum Econômico Mundial, com sua visão e propostas de mais e mais livre mercado desregulado como a base para o mundo.

Participantes do Fórum Social Mundial de 2009, em Belém, PA (Foto: Arquivo Ibase)

Houve um momento que o Fórum Social Mundial pôs em questão o brilho do “Partido de Davos” e conquistou ressonância em lugares inacreditáveis. Havia se criado uma liga em termos de sonhos, imaginários, valores e sentimentos com as maiorias do mundo. Contra a globalização mundial surgiam os embriões de uma cidadania de dimensões planetárias. O Fórum Social Mundial se caracterizava pela cacofonia de línguas, culturas, vivências de exclusões, desigualdades, explorações e dominações as mais diversas. Tinha vida e busca, acreditando que outro mundo era, sim, possível. A grande crise do capitalismo globalizado a partir de 2007 dava razão aos ativistas que se encontravam nos eventos do Fórum Social Mundial. Por razões que não cabe aqui aprofundar, o FSM foi incapaz de fazer o seu aggiornamento diante da grande crise capitalista e da dramaticidade que a mudança climática significa para o futuro da humanidade. As novas resistências e insurgências passaram a não mais reconhecer o FSM como espaço de contestação e, sobretudo, de construção da cidadania planetária que o mundo necessita nesta hora.
Assim, chegamos ao final da segunda dedada dos anos 2000 com o neoliberalismo recuperando o seu otimismo e arrogância. Hoje, o Fórum Econômico Mundial teme mais o Trump do que a capacidade da cidadania em contestá-lo. Bem, o Trump até foi lá e roubou a cena com suas estripulias nacionalistas, xenófobas, sexistas e racistas. Falta um contraponto verdadeiro, sério. Os 70 chefes de Estado e governo, inclusive o Temer e seu gerentão Meireles, que lá estiveram foram para nada mais e nada menos do que vender os nossos países como paraísos para negócios. No nosso caso, com um “ambiente” totalmente liberado para o capitalismo mais selvagem na exploração de gente e extrativismo sem peias.
Em tal contexto de negócios sendo vistos como salvação – hoje predominante no mundo, importa ressaltar -, sem contestação ameaçadora no imediato, gozando de uma hegemonia renovada, o Fórum Econômico Mundial se deu o luxo de definir como seu tema do evento de 2018 uma bela frase: “Criando um futuro compartilhado em um mundo fraturado”. Klaus Schwab, fundador e diretor executivo do Fórum Econômico Mundial, liderando uma equipe de mais de 650 colaboradores assalariados engajados, produziu uma mensagem a respeito, sob o título de “The world needs ´qualiative easing´ and business must lead” (em tradução livre, “O mundo necessita de ´apoio qualitativo´ e os negócios devem liderar”). Na mensagem, ele celebra a solução da crise financeira e o forte crescimento econômico de agora, superando  as ameaças de dez anos atrás.  Isto gera otimismo, segundo ele. Mas, não há dúvidas de que o mundo está em grande crise social e que estamos vivendo num mundo fraturado.
Enfim, o que era sistematicamente negado pelos “donos do mundo”, finalmente está sendo visto e admitido…, mas no seu modo de ver, com lentes de negócios e acumulação capitalista. Klaus propõe abertamente um “novo contrato social”, pois os fundamentos de nossas relações sociais estão sob severa pressão. Isto necessita de qualitative easing para os que foram deixados para trás. Porém, desta vez, não o Estado ou a sociedade civil, mas são os negócios que devem liderar. Que luxo! Será que é possível um capitalismo humanizado? O incrível é que em sua mensagem, Klaus nada fala da contradição entre negócios e sociedade, entre negócio e a integridade do planeta. De toda forma, tais posições nada mais são do que revelações da hegemonia total que tem o capitalismo neoliberal globalizado no mundo de hoje. Caminhamos para o desastre social e ambiental e… os negócios vão bem e podem ser mais condescendentes com os deixados para trás. Que distância entre o mundo encantado de Davos, do 1%, e a vida real nas grandes periferias do mundo.
Tentando mostrar responsabilidade social do mundo corporativo e coerência, o Fórum Econômico Mundial apresentou um sistema novo de indicadores, complementar do PNB. Trata-se do “Inclusive Development Index” – IDI (Índice de Desenvolvimento Inclusivo). É um pequeno avanço, sem dúvida. No entanto, longe de por em questão o próprio modelo de crescimento econômico como a causa da desigualdade e exclusão social, combinadas com a desastrosa ameaça do crescimento contínuo à integridade do nosso bem comum maior, o Planeta Terra.
Será que saberemos reinventar resistências transformadoras disto tudo em tempo? Como os dilemas cotidianos, as lutas heroicas e os gritos desesperados de tanta gente pelo mundo poderão se tornar poderosos movimentos de cidadania planetária transformadora? O momento, apesar de tudo, é de cultivar a esperança e de reconstrução do tecido social esgarçado, desde onde vivemos neste Planeta ameaçado. Acreditar na nossa força coletiva será meio caminho andado.
Rio de Janeiro, 29/01/18

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Comunicacao Ibase

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