Diretora do Ibase desde abril de 2017, Rita Corrêa Brandão tem uma já longa história dentro da instituição. Há 12 anos, entrou pelas portas da ONG e não saiu mais. Foi pesquisadora e coordenadora, inclusive de um dos maiores projetos já encampados pelo Ibase: o Incid.
Nesta entrevista, Rita fala um pouco sobre sua trajetória profissional, sobre mulheres que a inspiram e sobre o que ela espera para o futuro.
 
Ibase: Onde você nasceu e cresceu? Qual a sua formação? 
Rita: Nasci no Ingá, em Niterói, e morei em Copacabana até os seis anos. Cresci no Engenho novo, bairro do subúrbio do Rio de Janeiro, com longas férias de dezembro a março no sítio Jaçanã, de minha avó, em Jaconé, distrito de Maricá (RJ).
Sou formada em Serviço Social pela Escola de Serviço Social da UFRJ, especialista em Políticas Públicas e Mestre em Serviço Social e Políticas Sociais pela UERJ.
Ibase: Há quanto tempo está no Ibase e qual a sua trajetória dentro da instituição?
Rita: Estou há 12 anos no Ibase. Minha vinda para a Instituição se deve a duas pessoas com as quais trabalho aqui: Sandra Jouan, que entrou no Ibase depois de mim, e Chico Meneses, que foi diretor da casa.
Em 2002 eu era gerente dos Programas de Renda Mínima do Governo do Estado, na Secretaria de Ação Social (gestão da Benedita da Silva, do PT) e o Chico, que trabalhava com Segurança Alimentar no Ibase, solicitou uma entrevista com todos os gerentes de programa que lidassem de alguma maneira com alimentação. Eu era uma das escaladas para atender o Chico naquele dia. Acontece que caiu um temporal (que depois foi declarado dia de calamidade pública) e nenhum outro/a gerente chegou ao Palácio naquela manhã. Sandra, que havia conseguido chegar e era chefe de gabinete do Subsecretário, me deu todas as pastas dos outros programas e me disse que, como ninguém havia chegado, eu apresentaria todos os programas da Secretaria de Ação Social ligados à alimentação ao Chico. Assim fiz e, ao final, ele me perguntou se gostaria de trabalhar no Ibase após o término do mandato de Benedita.
Nessa época, já tinha uma experiência de 10 anos em projetos com trabalho em favelas. Entrei no Ibase em 2005 para trabalhar como pesquisadora com os “Núcleos de Integração Local”. Esse é um projeto bárbaro que o Ibase desenvolveu inicialmente de 2005 a 2011, sempre em parceria com Furnas Centrais Elétricas. Criamos esta reconhecida metodologia de desenvolvimento local, carro-chefe do Setor de Responsabilidade Social de Furnas. Inicialmente trabalhamos em 4 territórios no entorno de lixões em Jardim Gramacho, no município de Duque de Caxias (RJ), duas comunidades quilombolas nos municípios de Retiro e Araçatiba, ambos no Espírito Santo, e em uma comunidade atingida por uma barragem em Manso, no Mato Grosso. Ampliamos tanto o trabalho que chegamos a trabalhar em 14 territórios distintos em 11 municípios (espalhados em cinco estados). Passei de pesquisadora a coordenadora do Projeto.  Atualmente estamos retomando a parceria com Furnas e dando início a um novo projeto em mais cinco territórios a serem definidos.
Em 2012, atuei nos projetos “Morar Carioca” e “Indicadores de Cidadania” (Incid). Este último durou cinco anos (em parceria com a Petrobras), atuou em 14 municípios, tinha uma equipe de 30 pessoas, incluindo pessoas dos territórios, e foi outro projeto em que o Ibase criou uma metodologia própria e de excelente qualidade. Dizemos que é uma “super tecnologia social”.
Em 2016, em meio a um processo difícil de reestruturação do Ibase, fui indicada, por uma comissão do Conselho Curador da instituição para compor uma nova diretoria com um colega de trabalho maravilhoso e pessoa que admiro, o Athayde Motta, ainda contando com a assessoria (e auxilio luxuoso) desse super formulador da cidadania planetária que é o Cândido Grzybowski. Estou aprendendo a ser diretora com uma excelente parceria!
Ibase: O que te motiva? Há alguém que seja uma inspiração para você?
Rita: Todas as mulheres que saem do lugar socialmente determinado e fazem coisas improváveis, inovadoras ou desafiadoras são uma inspiração pra mim.  Mulheres que são exemplos, que fazem ou fizeram coisas importantes para outras tantas mulheres, com ousadia, contrariando as regras, superando os medos, as dificuldades e os desafios são inspiradoras. Tem várias…a Ruth de Souza, a Beatriz Nascimento, a Lélia Gonzáles, a Maria Carolina de Jesus, a Mercedes Baptista, a Tia Ciata…
Tem a Rosana Paulino – me impressiona muito o que ela faz nas artes, a forma como se expressa. Gosto como a Conceição Evaristo impacta tanta gente, gosto do que vem construindo como narrativa a Djamila Miranda. Tem as estadunidenses que são inspirações da vida também: A bell hooks, a Angela Davis. Tem a nigeriana Chimamanda Adichie. Conheci neste ano de 2017 a Winnie Byanyima, de Uganda, Diretora Executiva da Oxfam International, uma mulher poderosa, com uma história de vida incrível, inspiração para muitas mulheres.
Minha identificação direta é com as negras, mas tenho admiração por tantas outras mulheres: a Olga, a Frida, a Pagu, a Tarsila, a Chiquinha Gonzaga, a Cora Coralina, a Clarice Lispector, a resistência de Dilma Rousseff. Mas também me inspiro com mulheres comuns do dia-a-dia que conheço, que se movem. Mulheres sem nenhum reconhecimento público, mas que transformam muita coisa na vida dos que estão a sua volta, que exercem a tarefa do cuidado, com responsabilidade de criar pessoas melhores, de criar homens bacanas pro mundo, como é o caso da minha mãe, da minha avó e da minha bisavó, assim como minhas amigas e as mães de alguns de amigos.
Ibase: Qual sonho você já realizou?
Rita: Sempre quis ter uma família bacana, harmoniosa. Tenho a sorte de um amor tranquilo e companheiro e duas filhas lindas, meninas interessantes, inteligentes, bem-humoradas, generosas e consistentes; acho que são uma boa contribuição a este mundo tão esquisito em que vivemos. Trabalho no que gosto, participo de projetos muito bacanas, que curto muito ajudar a construir, pensar, formular, coordenar. Meu trabalho nunca foi pesquisa per se, trabalho desde sempre com territórios, com gente, faço na maioria das vezes um trabalho que acredito (o Ibase possibilita isso!). Tá tudo aí: amigos, discos e livros.
Ibase: Qual seu maior orgulho no trabalho?
Rita: Ter ajudado a criar metodologias importantes na instituição. Ter feito a diferença na vida de pessoas que conheci, nas equipes que coordenei, nos territórios em que trabalhei, e que são minhas/meus amigas/os até hoje.
Ibase: Por que o Ibase?
Rita: Porque é um lugar comprometido com a democracia, com a defesa dos direitos de cidadania que são valores que acredito. Que tem uma trajetória relevante na nossa sociedade. É um lugar onde ainda é possível desenvolvermos trabalhos importantes e nos quais acreditamos. Podemos ser criativos, inventivos, críticos, exercer militância política. Onde ainda é possível fazer tudo isso com condições boas de trabalho para que os projetos aconteçam com qualidade.
Ibase: O que é ser diretora desta instituição?
Rita: Sou uma diretora “in training”, como diz o Athayde.  Assim, e com esses dois craques junto, é bem bom! Gosto de aprender! Tem muito trabalho. Muita dor de cabeça também. Muitos desafios e muita superação. Veja, sou uma mulher, negra, de classe popular e formada em Serviço Social. Não é o que se pode chamar na nossa sociedade de uma receita para ser uma diretora de uma ONG grande e internacional. Meu capital é o meu trabalho, o estudo e a busca incessante de aprender sempre e mais, saber como é, como funciona para fazer bem, o empenho grande que coloco nas coisas que eu faço sempre.
A conjuntura atual para o campo das ONGs é assustadora em termos de financiamento, de sobrevivência das instituições. Muitas organizações bacanas históricas estão tendo que fechar as portas. O Ibase hoje é muito menor do que foi nos tempos áureos da cooperação internacional. É um desafio grande refundar a instituição. O que mais fazemos no Ibase agora é formular projetos, estabelecer parcerias de trabalho, buscar financiamentos, entrar em todos os editais possíveis e não fazer uma viagem nacional ou internacional sem tirar tempo para visitar um parceiro antigo ou procurar um potencial financiador novo. Estamos focados e com uma equipe na casa que também vem trabalhando muito. Uma hora viramos este jogo! Tenho certeza disso!
Ibase: Daqui a 10 anos, o que você espera estar vivendo?
Rita: Uma sociedade mais justa e igualitária, melhor para nossas filhas e filhos viverem.
 

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Comunicacao Ibase

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