Opinião

A Alemanha e a questão dos refugiados e migrantes

Cândido Grzybowski
Sociólogo, diretor do Ibase 

Diante da crise que a avalanche de refugiados e migrantes está provocando na União Europeia, a posição aberta e receptiva da chanceler da Alemanha, Angela Merkel, surpreende e se destaca por vários motivos. Afinal, é a mesma Merkel que foi extremamente dura e inflexível na questão da negociação da dívida da Grécia, abalando o princípio fundamental da solidariedade entre os diferentes povos que integram a União Europeia. Representando o país mais forte da UE, Merkel foi o sustentáculo político da “Troika”- Banco Central Europeu, Comissão Europeia e FMI – que impôs o receituário neoliberal de ajuste à Grécia e levou a economia do país ao desastre total. Nem o apoio da cidadania grega à posição de seu governo, buscando uma profunda renegociação, com certa compreensão de alguns líderes europeus, abalou a dura chanceler alemã.
A situação é bem diferente agora, diante da crise provocada por refugiados e migrantes. A chanceler alemã se destaca por assumir uma posição de tolerância, abertura e acolhimento, bem diferente da Inglaterra e Hungria, por exemplo. A Hungria até ergueu um muro na sua fronteira com a Sérvia, para impedir a entrada e a passagem pelo seu território, já que a maioria busca o Norte da Europa, de países mais ricos. Aliás, o objetivo principal é a Alemanha mesmo. Angela Merkel chegou até a falar em receber de braços abertos 800 mil. Na UE está em discussão uma proposta de cotas de refugiados e migrantes por país, segundo seu tamanho, mas sofre forte resistência.
O fato é que, com a crise provocada por refugiados e migrantes, outro princípio fundamental na construção da União Europeia, além da solidariedade, está profundamente abalado. Trata-se do princípio de fronteiras abertas. Na Europa Ocidental, berço desta comunidade, a gente nem mais sabe onde ficam as fronteiras físicas, pois ao entrar num país automaticamente a gente é aceito em todos. A exceção ainda é aquela ilha que já foi um império onde o sol não se punha, a Inglaterra, com suas regrinhas próprias. Entre os demais, existe um tratado – e ele é visto como problema hoje – que cabe ao país de entrada a responsabilidade primeira pela acolhida de refugiados e migrantes. Vistos para entrada de estrangeiro(a)s nos países integrantes da UE são exigidos da maioria dos países, o Brasil é, sim uma exceção. Receber refugiados e migrantes é, de algum modo, se responsabilizar por eles até que a sua situação seja regularizada. Na crise atual, o peso maior de tal responsabilidade coube à Grécia e Itália, países da UE do Mediterrâneo onde chegam os seus improvisados barcos.
A origem do problema tem como epicentro o Oriente Médio, em particular a Síria em guerra civil. Mais de 4 milhões de sírios saíram do país, principalmente para Jordânia, Líbano e Turquia. Uma parte deles forma a avalanche que aporta na UE. A eles se somam muitos outros, particularmente líbios, sudaneses, somálios, nigerianos, todos ameaçados pelos extremismos islamitas, com destaque para o Estado Islâmico. Mas há também afegãos e paquistaneses. Na onda se juntam ainda sérvios, albaneses e outros mais. Enfim, refugiados e migrantes de uma globalização econômico-financeira que não dispensa a guerra de extermínio nas periferias, como Iraque, Síria e Afeganistão, para demarcar áreas de influência.
Este é o contexto maior, que sempre precisa ficar presente. Afinal, no modelo dominante de nos organizarmos como sociedades integrantes de um mesmo planeta, ganha o mais forte, mas não tem lugar para todo mundo. Assim, os e as “descartáveis”- como já defini os refugiados e migrantes em crônica anterior – buscam desesperadamente um lugar para viver decentemente. Este é um drama humano, que muitos não querem ver e, sobretudo, considerar como seu também. Assim, apesar do princípio de asilo e acolhimento de refugiados ser central na constituição da UE, visando superar uma tradição de intolerâncias e muitas guerras, hoje não está fácil. As barreiras e controles de fronteira transformam a entrada nos países da UE uma aventura que pode custar a vida, como já aconteceu para mais de três mil afogados nas águas do Mediterrâneo. Além disto, quase todos são presas fáceis de contrabandistas e traficantes que cobram preços absurdos para transportar refugiados e migrantes em barcos superlotados e sem as mínimas condições.
Mas voltemos para a Alemanha, motivo desta crônica. Estive em Berlim de 4 a 9 de outubro para participar da reunião do Grupo de Referência Global (GRG) da Brot für die Welt, agência protestante alemã de cooperação, uma das maiores do mundo, que apoia o Ibase. Foi uma reunião intensa – somos 10 membros, nove estiveram presentes – com a direção para discutir o plano estratégico da entidade de 2016 a 2020. A questão dos refugiados e migrantes entrou na agenda tanto pelo fato de uma parte importante da entidade ter a ver com ajuda humanitária, como ainda, sendo uma agência da Igreja protestante, estar diretamente envolvida no trabalho de acolhimento de refugiados e migrantes na Alemanha. Evidentemente, como ativista por outro mundo, eu estive particularmente atento ao modo como a questão era percebida pela cidadania alemã.
Um destaque, que quero dar em primeiro lugar, é para a posição da própria de Brot für die Welt. Nos documentos, ainda em elaboração, do plano estratégico, chamou-me a atenção o modo de ver a questão da migração em geral. Define-se a migração – a acolhida e inclusão social dos migrantes – como uma grande oportunidade e possibilidade de desenvolvimento, não um problema. Tal posição norteia e norteará a ajuda humanitária e a ação da igreja na própria Alemanha. A entidade integra a rede mundial Act Alliance, das igrejas protestantes, que também manifestou uma posição solidária e positiva com os refugiados e migrantes. Tive a oportunidade, no final do dia 6 de outubro, terça-feira passada, de visitar um centro de acolhida, em Berlim, a cargo da Diakonie protestante. É um dos pioneiros, com capacidade de acolher simultaneamente mais de 300 pessoas. Foi grande, mas hoje existem centros de acolhida com capacidade de até mil pessoas. O centro que visitei é de enormes tendas infláveis, montadas em poucos dias. O centro foi erguido pelo governo, mas é gerido pela Diakonie, com uma equipe permanente de profissionais e mais 1.300 voluntários cadastrados, que apoiam com tradução, ensino de línguas, atividades de recreação para crianças, orientação legal para pedido de asilo, distribuição de roupas e comida etc. No grupo de acolhidos dominam os e as jovens. Há uma grande volatilidade, desde os que ficam só uma noite a outros que estão um mês ou mais. A sua composição mostra a amplitude da chegada de migrantes e refugiados: há mais de 20 países de origem. Destaco o profundo respeito com as pessoas acolhidas, num esforço de humanizar o drama sofrido por elas para chegar até aí.
Hoje estima-se que são mais de 800 mil refugiados e migrantes dessa leva que entrou na Alemanha. Pode chegar a 1.500 mil até o fim do ano. Diante de tal avalanche, crescem as contradições e os debates no interior da Alemanha. No interior da coalizão governamental liderada pela CDU (democrata cristão) de Angela Merkel, o CSU (cristão de direita) diverge abertamente. O governador regional da riquíssima Baviera, Horst Seehofer, líder do CSU, recebeu e homenageou o primeiro ministro da Hungria, Victor Orbán, pela sua radical posição contra os refugiados e migrantes. Na ocasião decidiram lutar juntos contra a política de asilo de Merkel.
Na sociedade alemã, dominantemente receptiva no início, começam a aparecer alguns sinais de oposição à decisão de Merkel em diferentes setores. A Alemanha precisa de mão de obra, isto é um fato. Sua população envelhece e tende a diminuir, pela baixa reprodução. Mas os imigrantes que as empresas buscam é mão de obra qualificada e que fale alemão. Até muitos dos refugiados e migrantes são bem qualificados, mas esbarram na questão da língua. O desafio mais grave tem a ver com a própria história da Alemanha, que todo mundo gostaria de ver enterrada com o fim do III Reich de Hitler, na II Guerra Mundial, e com a reunificação, após a queda do Muro de Berlim, em 1989. No entanto, grupos minoritários, pregando a intolerância, tem sempre aparecido. Por exemplo, a “Pegida”, que havia amainado um ano atrás, volta a ocupar o noticiário. Trata-se de um movimento que se autoproclama como de cristãos contra a “islamização” da Alemanha. Cresce a oposição na opinião pública, pelo que me contaram os amigos (não leio alemão!).
Em termos fiscais, para bancar a acolhida de tanta gente, o governo alemão tem uma economia forte e um excedente fiscal estimado em 5 bilhões de euros para este ano. O problema é que o governo federal tem que aumentar os repasses a governos estaduais e cidades, responsáveis pelos centros de acolhida. O superávit pode virar pó em pouco tempo.
Enfim, está se armando um quadro complexo. Até aqui Angela Merkel resistiu. Sua posição tem animado as organizações da sociedade civil mais abertas, de grupos de direitos humanos e das igrejas cristãs. Mas isto não basta para segurar o governo do CDU, da Merkel, como CSU e SPD. Ainda mais que de dentro da Alemanha aumentam as vozes de contestação. O pior é a União Europeia esgarçada com crises em seu interior, como a questão da Grécia, e com uma maioria de governos contrários à posição de Merkel.
O certo é que a questão dos refugiados e migrantes jogou no colo dos alemães o desafio de mostrar que a maioria de seus cidadãos e cidadãs busca a convivência entre povos, com base nos direitos humanos iguais e no respeito da diversidade. Mais: cabe à Alemnha, país líder, mostrar que o projeto da União Europeia pode ser resgatado em sua essência, de território da solidariedade e de fronteiras abertas. Tarefa nada fácil, ainda mais sob a hegemonia de um governo determinado, mas a seu modo muito contraditório.

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Comunicacao Ibase

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