Cândido Grzybowski
Sociólogo, diretor do Ibase

Onde estão as vozes dissonantes? O que aconteceu? Por que esta subordinação a uma agência privada de risco? É triste de ver e viver um momento assim, de total subordinação e subserviência até! Dediquei muitos anos de vida e energia como dirigente de organização de cidadania ativa e me engajei no Fórum Social Mundial contra o neoliberalismo, o “Consenso de Washington”, o FMI, BM e OMC, contra as suas agendas e imposições de ajuste estrutural e liberdade total aos capitais e mercados. Parece até que esquecemos os enormes sofrimentos das populações e a verdadeira destruição de economias que o neoliberalismo tem provocado. A América Latina das décadas perdidas, no final do século XX, e os países do Sul da União Europeia, hoje, mostram em que pode dar tudo isto, visto como único caminho possível. Agora tudo volta da forma mais ilegítima possível, através das chamadas agências de risco, instituições privadas de avaliação de países, suas economias, seus governos, suas sociedades.
Afinal o que são estas agências? A quem servem? Penso que a melhor definição, ao menos rapidamente compreensível, é dizer que não passam de avaliadoras privadas do desempenho do “cassino” em que virou a globalização. Afinal, os tais capitais financeiros são mais de 10 vezes o PIB mundial. Uma jogatina que determina a vida de 99% das populações em benefício de 1% que especula, como bem identificaram os occupies e “indignados” mundo afora. Com a ocupação de praças e os protestos diante de uma economia global, feita para acumular sempre mais em detrimento de todo mundo e de tudo, eles clamaram e clamam por justiça social. Thomas Piketty, o economista que simplesmente voltou a pesquisar com seriedade, sem se subordinar aos dogmas neoliberais, demonstrou cabalmente como o capital funciona contra os povos e suas economias.
Minha indignação é diante da unanimidade submissa e até envergonhada de nossos governantes, congressistas, líderes empresariais, grande mídia, o grosso dos economistas e analistas diante do tal “rebaixamento da nota” pela Standars & Poors. Ainda nos lembram e tentam criar medo com o possível “rebaixamento” das outras duas fiéis garantidoras do capital especulativo, a Moody’s e a Fitch. Por que não lembram da excelente nota dada por estas agências ao Lemon Brothers, que, no entanto, ruiu como um castelo de cartas e evaporou-se, quebra que contribuiu decisivamente para mergulhar a economia americana e mundial na grande crise de 2008 e 2009?
Afinal, agências privadas a serviço do capital especulativo podem avaliar governos? Poder até que podem, mas não é legítimo e nem legal que isto esteja acima da cidadania dos países. Cabe a nós avaliar governos e representantes eleitos. Cabe a nós controlar as suas políticas. Se as elites se orientam por tais agências de risco e suas notas sobre como governos, economias e empresas são boas pagadoras, é opção delas. O que não podemos aceitar que isto contamine tudo, a vida política, o debate necessário sobre projeto de país, o rumo a seguir, as políticas necessárias. Não temos um Brasil para servir a capitais! Nosso Brasil deve ser território para o seu povo, para seu bem estar e felicidade. Por que as agências de risco – assim como a agenda do “Consenso de Washington” – nunca partem da avaliação dos empregos e salários, do direito ao trabalho e renda, do direito à saúde e educação, do direito à mobilidade e segurança, entre tantos outros? Aliás, tudo isto não passa de efeito colateral para elas e não é considerado como central para governos e economias que importam. Para as agências conta o quanto “bons pagadores” somos ou podemos ser.
Bem, devo reconhecer que a opção de nossos governantes por uma aliança com banqueiros, grandes empresas e mídia dominante, sem mudar substancialmente a lógica do desenvolvimento concentrador de riquezas e ambientalmente destruidor, fazendo tudo depender do crescimento do PIB e limitando-se a criar condicionalidades sociais para alimentar políticas distributivas e o consumo, criou esta situação que nos põem de joelhos diante de capitais especulativos. Isto vem de longe. Fomos mudando governos e aperfeiçoando, por assim dizer, a insustentabilidade ambiental, social e econômica, pondo em risco até a democracia brasileira, até aqui nossa maior e melhor conquista dos últimos 30 anos.
O fato é que precisamos reinventar-nos baseados nas possibilidades da democracia conquistada. Enorme desafio, pois a própria democracia precisa ser revitalizada e radicalizada. Ao invés da agenda neoliberal destilada por agências do “cassino global” e sua ameaça radical – agora mais por rendição submissa e envergonhada de nossas elites do que imposição -, precisamos definir um rumo e uma agenda de mudanças pactuadas democraticamente, tendo em vista gestar um país de cidadania plena, onde todo mundo, sem distinção, tenha o mesmo direito de ter direitos, um povo e um país feito por cidadania, com mais sustentabilidade social e ambiental. Claro que precisamos de economia, de governos e de políticas. Mas não de uma economia que ignora a cidadania, subjuga governos e destrói o território bem comum a serviço de sua acumulação. Economia para gente e de gente, governos feitos por cidadania e a serviço da cidadania. Enfim, uma sociedade de bem consigo mesma, aberta para o mundo e solidária com outros povos.
Que sina a nossa! Estamos mergulhados numa crise de hegemonia monumental, onde falta debate político capaz de apontar possíveis rumos, alimentar um imaginário mobilizador e fazer emergir novos líderes. No seu lugar, surge a pequena política, da intriga, das acusações, dos oportunismos. A nota de uma agência a serviço dos capitais especulativos encontra terreno fértil entre a nossa elite – situação e oposição – pois ela é incapaz de ver a sua própria responsabilidade por tudo que estamos passando no momento. A nota de rebaixamento oferece-lhes uma âncora e ocupa o vazio da falta de ideias e de grandeza política, democrática e republicana que o momento exige. Daí, do sistema político dominante, com os partidos zelando por seus próprios interesses, descolados do país, nada virá mesmo, a não ser uma sucessão de escaramuças paralizantes.
Resta-nos, como cidadãs e cidadãos, zelar pela própria democracia, antes de mais nada. Precisamos olhar para a vida que segue, para as trincheiras de resistência que abrimos aqui e lá. Mudanças mesmo só poderão brotar das redes sociais que pudermos fomentar e ampliar, criando movimentos fortes e novas lideranças, capazes de desencadear uma nova onda democrática irresistível. Trata-se de uma espécie de volta às bases, às escolas e universidades, aos locais de trabalho, ao encontro de nossos pares, em casa e nas associações e grupos, na igreja, no bar ou na praia. Trata-se de revalorizar os nossos territórios, o cotidiano da vida, enfim, onde poderemos reencontrar-nos e redescobrir energia e sentido para projetos coletivos de envergadura, capazes de renovar a democracia. O processo de reconstrução e renovação será longo. O jeito é começar desde já.

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Comunicacao Ibase

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