Por Frei Rodrigo de Castro Amédée Péret, ofm
Lançada nesta quinta-feira, 18, a nova encíclica do Papa Francisco, “Laudato Si, sobre o cuidado da casa comum”. O título, que significa “Louvado Seja”, remete ao ‘Cântico das Criaturas’ de São Francisco de Assis, religioso que inspirou o Pontífice na escolha do seu nome.
Na encíclica o Papa se refere aos danos a “nossa casa comum”, como sendo imputáveis à ganância humana, ao cinismo dos mercados, às multinacionais, às políticas míopes e corruptas, mas também ao comportamento irresponsável fruto de uma cultura do descartável e do individualismo. Nós crescemos acreditando autorizados a saquear o planeta. O Papa nos chama à educar para uma aliança entre a humanidade e o meio ambiente, estimulando ao que pode ser chamado de “conversão ecológica”“Não haverá uma nova relação com a natureza, sem um ser humano novo. Não há ecologia sem uma adequada antropologia.” (118)
Em 192 páginas, o texto reflete sobre a crise ambiental como uma crise antropológica e, que está ligada ao modelo de desenvolvimento. O Papa se refere à necessidade de eliminar as causas estruturais de uma economia que não respeitam o ser humano e o meio ambiente. Francisco faz um apelo aos governos e instituições, propondo novos modos de vida.
São 246 parágrafos divididos em seis capítulos, que adicionam uma nova contribuição para a doutrina social da Igreja colocando a humanidade diante de suas responsabilidades. Alguns eixos perpassam todo texto da encíclica “Por exemplo: a relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta, a convicção de que tudo está estreitamente interligado no mundo, a crítica do novo paradigma e das formas de poder que derivam da tecnologia, o convite a procurar outras maneiras de entender a economia e o progresso, o valor próprio de cada criatura, o sentido humano da ecologia, a necessidade de debates sinceros e honestos, a grave responsabilidade da política internacional e local, a cultura do descarte e a proposta dum novo estilo de vida. Estes temas nunca se dão por encerrados nem se abandonam, mas são constantemente retomados e enriquecidos” (16).
Mesmo reconhecendo com gratidão a contribuição da tecnologia na melhoria das condições de vida (102-103), o texto tece uma dura crítica à tecnologia à serviço do poder economico. Considera louvável o esforço de cientistas e técnicos “que procuram dar solução aos problemas criados pelo ser humano. Mas, contemplando o mundo, damo-nos conta de que este nível de intervenção humana, muitas vezes ao serviço da finança e do consumismo, faz com que esta terra onde vivemos se torne realmente menos rica e bela, cada vez mais limitada e cinzenta, enquanto ao mesmo tempo o desenvolvimento da tecnologia e das ofertas de consumo continua a avançar sem limites” (34). Critica o poder que a tecnologia dá àqueles que detêm o conhecimento e sobretudo o poder económico para o desfrutar, um domínio impressionante sobre o conjunto do género humano e do mundo inteiro” (104). Se refere ao fato de que as lógicas de domínio tecnocrático destroem a natureza e exploram as pessoas e as populações mais vulneráveis. “O paradigma tecnocrático tende a exercer o seu domínio também sobre a economia e a política” (109), e não permitem reconhecer que “o mercado, por si mesmo, não garante o desenvolvimento humano integral nem a inclusão social” (109).
 
A enciclica fala de uma “ecologia integral”, que integre o lugar específico que o ser humano ocupa neste mundo e as suas relações com a realidade que o rodeia” (15).  Uma vez que tudo está interligado” (138), se trata de ecologia ambiental, econômica e social: Isto impede-nos de considerar a natureza como algo separado de nós ou como uma mera moldura da nossa vida” (119)Indica a necessidade de buscar soluções integrais. E agrega ainda à noção de “ecologia integral” a “ecologia cultural” e a “ecologia da vida cotidiana”, que envolve cada pessoa nos seus hábitos e modos de viver.
A enciclica  também sugere várias ações para novas políticas internacionais, nacionais e locais. Evoca a transparência nos processos de negociação e decisão. E em relação à questão climática, denuncia que: As negociações internacionais não podem avançar significativamente por causa das posições dos países que privilegiam os seus interesses nacionais sobre o bem comum global” (169).
Prega a necessidade de se criar um consenso global: “Para enfrentar os problemas de fundo, que não se podem resolver com acções de países isolados, torna-se indispensável um consenso mundial que leve, por exemplo, a programar uma agricultura sustentável e diversificada, desenvolver formas de energia renováveis e pouco poluidoras, fomentar uma maior eficiência energética, promover uma gestão mais adequada dos recursos florestais e marinhos, garantir a todos o acesso à água potável” (164).
Faz um apelo aos que governam para que se afastem de uma lógica “eficientista e imediatista atual da economia e da política” (181). Atesta a necessidade do diálogo nos processos decisórios: É sempre necessário alcançar consenso entre os vários actores sociais, que podem trazer diferentes perspectivas, soluções e alternativas. Mas, no debate, devem ter um lugar privilegiado os moradores locais, aqueles mesmos que se interrogam sobre o que desejam para si e para os seus filhos e podem ter em consideração as finalidades que transcendem o interesse económico imediato. É preciso abandonar a ideia de «intervenções» sobre o meio ambiente, para dar lugar a políticas pensadas e debatidas por todas as partes interessadas” (183).
O texto fala de “política e economia dialogando para a plenitude da vida”: “A política não deve submeter-se à economia, e esta não deve submeter-se aos ditames e ao paradigma eficientista da tecnocracia. Pensando no bem comum, hoje precisamos imperiosamente que a política e a economia, em diálogo, se coloquem decididamente ao serviço da vida, especialmente da vida humana. A salvação dos bancos a todo o custo, fazendo pagar o preço à população, sem a firme decisão de rever e reformar o sistema inteiro, reafirma um domínio absoluto da finança que não tem futuro e só poderá gerar novas crises depois duma longa, custosa e aparente cura.” (189) E, reforça a doutrina social da Igreja ao repetir que a protecção ambiental não pode ser assegurada somente com base no cálculo financeiro de custos e benefícios. O ambiente é um dos bens que os mecanismos de mercado não estão aptos a defender ou a promover adequadamente” (190).
Papa Francisco ressalta a importância do louvor, da dimensão contemplativa, essencial para uma “educação e espiritualidade ecológicas”, uma “conversão ecologica”. “Uma consciência amorosa de não estar separado das outras criaturas, mas de formar com os outros seres do universo uma estupenda comunhão universal. O crente contempla o mundo, não como alguém que está fora dele, mas dentro, reconhecendo os laços com que o Pai nos uniu a todos os seres. Além disso a conversão ecológica, fazendo crescer as peculiares capacidades que Deus deu a cada crente, leva-o a desenvolver a sua criatividade e entusiasmo” (220).
Importam, também, o cuidado, o bem comum a prática da justiça, e “mudanças nos estilos de vida” (203-208), que , “poderia chegar a exercer uma pressão salutar sobre quantos detêm o poder político, económico e social” (206). 
São inúmeras as referências à São Francisco de Assis. Ele é “o exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral, vivida com alegria” (10). Nele se nota até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior” (10). São recordados também São Bento, Santa Teresa de Lisieux e o Beato Charles de Foucauld.
Também chama atenção as inúmeras referências e notas que o Papa Francisco faz de texto de diferentes Conferencias Episcopais de todo o mundo. Num claro sentido de colegialidade e de expressão de um magistério participativo.
A encíclica revela-se como extremamente profética, com uma linguagem simples que dialoga não só com os católicos mas com diferentes igrejas, religiões e culturas. Cabe ainda ressaltar que o Papa Francisco faz uma justo reconhecimento aos que lutam pelas questões ambientais: O movimento ecológico mundial já percorreu um longo e rico caminho, tendo gerado numerosas agregações de cidadãos que ajudaram na consciencialização. Infelizmente, muitos esforços na busca de solu- ções concretas para a crise ambiental acabam, com frequência, frustrados não só pela recusa dos poderosos, mas também pelo desinteresse dos outros. As atitudes que dificultam os caminhos de solução, mesmo entre os crentes, vão da negação do problema à indiferença, à resignação acomodada ou à confiança cega nas soluções técnicas. Precisamos de nova solidariedade universal. Como disseram os bispos da África do Sul, «são necessários os talentos e o envolvimento de todos para reparar o dano causado pelos humanos sobre a criação de Deus». Todos podemos colaborar, como instrumentos de Deus, no cuidado da criação, cada um a partir da sua cultura, experiência, iniciativas e capacidades” (14).

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