Rio de Janeiro, 1 de dezembro de 2014
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Por Cândido Grzybowski
Sociólogo e diretor do Ibase
Hoje, 1 de dezembro de 2014, o Ibase recebe membros de seus Conselhos, associado(a)s, colaboradore(a)s e amigo(a)s para celebrar sua nova sede, aos 34 anos, na Rua Senador Dantas, 40. Trata-se de algo muito simbólico para o Ibase. Concebido como uma organização de cidadania ativa para a base (Instituto para a base), por ativistas no exílio – Betinho, Carlos Afonso e Marcos Arruda – tornou-se realidade efetiva em 1981, com raízes no Rio. Teve endereço na Rua Vicente de Souza, depois na Ouro Preto, no Clube de Engenharia na Av. Rio Branco e, agora, na Senador Dantas. As raízes são aqui, mas desde o nascimento o Ibase se caracteriza como um nodo de extensa rede de parcerias na sociedade civil para dentro do Brasil e para a Região da América Latina e o mundo. Aliás, é invenção do Ibase o Alternex, que funcionou como primeiro provedor de acesso à Internet da sociedade civil no Brasil e região, ainda em 1989. Também, na primeira década do século XXI,o Ibase pôs muito de si na emergência do Fórum Social Mundial.
Por que lembro de tudo isto? Fui instigado por uma longa entrevista dada na terça feira, 25/11, de mais de 3 horas, para um documentário sobre o Betinho. Meu papel foi lembrar a simbiose entre Betinho e Ibase. Mas isto coincide com mais uma reinvenção do Ibase, bem ao espírito do legado deixado por Betinho. Para ser o que seus fundadores desejaram, o Ibase precisa recriar-se segundo as conjunturas. Claro, mudar endereço pode ser nada. No caso do Ibase, porém, a mudança física coroa um ciclo de dolorosa refundação, iniciada ainda em 2009, passando por tenebrosa crise, reestruturação e completada em 2013. Novo Ibase, novo endereço. Na verdade, estamos mudando de estilo, compartindo muito mais espaços físicos, das equipes e projetos, com propósitos de mais e mais ações em conjunto com parcerios no campo democrático e popular, no Rio, no Brasil, na Região e no Mundo. Isto merece ser comemorado.
Uma questão central neste se reinventar do Ibase, que exige análises estratégicas e opções sobre o que priorizar, é como aprofundar a democracia, a cidadania ativa, a promoção radical de direitos, com justiça socioambiental. Penso que isto tudo esteve naquelas cartas trocadas entre os fundadores, ainda antes na Anistia, sobre o que fazer na volta que se anunciava. Mas a importância destes fatores na equação política a ser enfrentada por uma pequena organização de cidadania ativa mudou. Muito foi conquistado em termos de democratização do Brasil desde a fundação do Ibase. A ditadura ficou 30 anos atrás. Tivemos a Nova Constituição, governos eleitos pelo voto desde então e alguns avanços em termos de inclusão social. Mas ainda não mudamos o país, mesmo tendo eleito um operário, migrante do Nordeste, como presidente. A lógica da desigualdade social, combinada com destruição ambiental, continua quase intacta. O agronegócio está mais forte do que antes e a reforma agrária uma bandeira esfarrapada, precisando ser refeita diante do poder dos donos de gado e gente, ainda mais agora com a chefe do agronegócio à frente da agricultura no Governo Dilma II. O amigo do Ibase nos anos 80, Chico Mendes, morreu e a Amazônia continua sendo mera frente de expansão colonial do Brasil, agora considerado potência emergente num mundo de guerras e falta de horizonte. A sucessora de Chico Mendes, a Marina Silva, virou fundamentalista em termos de direitos humanos e, por pragmatismo de poder, se aliou ao retrocesso.
A agenda de cidadas cidadãs não passou de uma intenção. Se a gente tomar o Rio de Janeiro como exemplo, prevaleceu o projeto de cidade global, nodo de negócios globais, contra gente se preciso. O código ambiental foi mudado, ou melhor, flexibilizado. De forma mais pró negócio, pode ser mudando o código mineral, com até abertura de terras indígenas para este predador negócio. Em termos econômicos estamos mais dependentes de commodities, ou seja, de natureza, e as melhores perspectivas no futuro próximo é virarmos um grande exportador de petróleo do pré-sal. Será que Betinho tinha imaginado tudo isto como possibilidade no horizonte?
O fato é que o Ibase resiste e cumpre a sua missão de incomodar os poderes e apontar para mais democracia, cidadania, direitos e sustentabilidade, como possibilidade real. Aqui adoto uma definição minha para exprimir pratica e ironicamente (bem ao gosto de Betinho) a missão do Ibase na atualidade. Trata-se de sermos uma pulga, que morde o elefante Estado com seus representantes e seus poderes legais, o tal mercado com sua economia a serviço da acumulação, longe de satisfazer responsavelmente as necessidades em bens e serviços de uma população, hoje, de mais de 200 milhões. Não podemos mudar estruturas, sabemos. Mas incomodamos, ainda mais quanto atuamos em rede de organizações e movimentos de cidadania ativa, como verdadeira colônia de pulgas a morder e fazer mover.
Hoje o Ibase, em novo endereço, tem um ousado propósito de lutar por mudança de paradigma civilizatório, nada menos do que isto. Parece ficção, mas não é. Temos um gás danado para persistir neste propósito. Betinho nos ensinou a pensar com ousadia e grandeza para fazer grandes coisas. Não pensamos pequeno, apesar do pequeno e simpático escritório. Aí cabe todo mundo, porém, como na Grande Bocaiuva de Betinho. Vamos fazer junto o Brasil que o mundo precisa!
Rio, 01/12/14

Autor

Martha Moreira

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