Rio de Janeiro, 29 de julho de 2014

Por Rogério Daflon
Enviado a Carajás

A viagem de ativistas sul-africanos e moçambicanos à Região do Carajás começou bem antes do dia 17 de julho, quando eles chegaram à cidade de Marabá, no Sudeste do Pará, e iniciaram um profundo estudo sobre aquela região. A viagem começou no Fórum Social Mundial, no qual o Ibase, por meio do projeto Diálogo dos Povos, se articulou a outros movimentos sociais da África. Dessa rica interlocução, houve um tema em comum: os males da mineração mundo afora. Daí surgiu a ideia de trazer uma delegação à Região Norte do Brasil.
Logo no primeiro dia (17/07), uma atividade na Unifespa, bem próxima do belo Rio Tocantins, já dava o tom da riqueza do de debate que se estenderia até o dia 22. Nela, um professor da universidade, Bruno Malheiros, e o ativista Raimundo Cruz Neto trouxeram à tona as mazelas do setor mineral naquela região. Raimundo fez uma narrativa a partir dos anos 1950, discorreu sobre o tempo em que a Vale era uma estatal, em que já deu exemplos da atuação da empresa no território e como, já nos anos 1980, ela prejudicava o meio-ambiente e populações tradicionais. A barragem de Tucuruí, por exemplo, expulsou mais de 30 mil pessoas, que, quando tiveram, conseguiram uma indenização irrisória. Malheiros, por seu turno, levou a plateia a outro reflexão: a da atuação da Vale em diferentes níveis da educação. No Pará, apontou ele, há projetos da transnacional no ensinos fundamental, médio, superior e técnico, todos com a bandeira da ideologia da Vale.
No segundo dia viagem, todos rumaram a Parauapebas. Houve visitas a acampamentos do Movimento Sem Terra e a IFPA (uma escola do campo formada no contexto da realidade camponesa). Uma passagem pela Curva do S simbolizou um grande momento de reflexão. Nela, há as cruzes representando as mortes de garimpeiros de Eldorado de Carajás, um dos maiores massacres da polícia sobre trabalhadores da história do país.
A hospedagem mais que hospitaleira no acampamento do MST Frei Henri fechou aquela noite com chave de ouro. A recepção maravilhosa anunciava um dia seguinte repleto de trabalho. Através de uma autorização do Instituto Chico Mendes (ICMbio), a delegação pôde conhecer o projeto Carajás, da Vale. O biólogo Fred apontou os problemas trazidos pela Vale às populações dalio e à biodiversidade do lugar. Em seguida, todos foram hospedados no Assentamento Palmares, onde conheceram uma escola municipal que segue à risca o projeto pedagógico do MST.
A delegação mostrou todo o encantamento ao ver experiências educacionais que não veem em seus países. Ficariam ainda mais impresssionados com a escola de agroecologia IALA no dia seguinte, na qual houve uma incrível roda de conversa onde sul-africanos e moçambicanos expuseram, de forma brilhante, os problemas enfrentados por trabalhadores e atingidos da mineração. Como contrapartida, eles também ouviram relatos sobre a luta no Brasil contra os despautérios da mineração, protagonizadas pelo Comitê Nacional em Defesa dos Territórios frente à Mineração e o MAM, um braço do MST na luta contra a forma que se dá a atividade mineral no país. Os diferentes grupos de países perceberam o quanto suas lutas têm em comum. E saíram mais fortes dessa rica convivência.
A cidade de Parauapebas, com seu impressionante crescimento populacional, também foi tema de muitas conversas. Como a mineração trabalha com bens finitos, a preocupação com o futuro daquela município – cujos males do crescimento acelerado já são notados em bairros extremamente pobres – foi sentida em todos da delegação. Na cidade, houve ainda um debate com diferentes sindicatos, nos quais os trabalhadores são atingidos pela injustiça social levada a cabo pela Vale.
No dia 22, todos jantaram e fizeram um balanço da viagem. Obviamente, inesquecível para todos.

Autor

Martha Moreira

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