DEMISSÃO ANULADA
No último dia 6, a ex-diretora do Ibase, a cientista social e doutora em história Dulce Pandolfi havia sido demitida do CPDOC/FGV. Mas a direção da FGV anulou a demissão, atendendo ao manifesto de quase 2 mil alunos, professores, pesquisadores e amigos de Dulce.
O Ibase apoia o conteúdo da carta – assinada por amigos de Dulce – que está circulando pela internet e também considera absurda esta demissão.  Para assinar a Carta de Solidariedade a Dulce e outros pesquisadores da FGV, clique aqui.
Agradecemos, em nome dela, os 113 compartilhamentos da postagem no Facebook que fizemos sobre o assunto no último dia 9.
Abaixo, o texto na íntegra:

UMA DEMISSÃO ARBITRÁRIA E INADMISSÍVEL NUMA INSTITUIÇÃO DE PESQUISA E ENSINO
No dia 6 de setembro de 2013, uma sexta feira à tarde, a direção do CPDOC demitiu sumariamente Dulce Pandolfi, uma das pesquisadoras conhecidas do CPDOC-FGV, autora de livros e trabalhos de referência sobre a história política contemporânea de Pernambuco, sobre o federalismo no Brasil, sobre o Partido Comunista Brasileiro, sobre a história contemporânea das favelas cariocas, sobre movimentos sociais. Além de historiadora do CPDOC, foi recentemente diretora do IBASE (que conciliava com suas 20 horas no CPDOC), e participou de júris de premiação de teses da ANPOCS. Em suma é uma militante da academia das ciências sociais brasileiras e uma militante cívica da história contemporânea brasileira. Este ano mesmo foi convidada pela Comissão da Verdade do Rio de Janeiro para ser uma das duas depoentes testemunhas da violência exercida pela ditadura militar em sessão pública inaugural. Seu depoimento é uma peça histórica de tal importância que é difícil o CPDOC, com seu famoso acervo documental das elites brasileiras (e um acervo menor referente a grupos populares e seus representantes, graças ao trabalho de alguns pesquisadores da instituição em que Dulce Pandolfi se inclui) ter um documento de tal expressão da densidade da condição humana em situações extremas. (Os historiadores do futuro estudiosos do depoimento de Dulce Pandolfi ficarão pasmos de saberem de sua demissão pretérita do CPDOC).

A demissão foi justificada por uma avaliação feita por comissão acadêmica de três membros. Os funcionários foram convocados a produzirem e apresentarem sua documentação. Sabedora da prática institucional recente da direção de demitir seus funcionários que atingem os 65 anos, Dulce Pandolfi não via razão para enviar seu dossiê, visto que atingiria tal idade em poucos meses. Apesar de estar em viagem, foi compelida a apresentar seus documentos. As avaliações que nas instituições acadêmicas usualmente são feitas para dar lastro a progressões ou seleções para postos superiores, aqui serviu para demissões sumárias. As avaliações acadêmicas são bem vindas como fator de vitalização e aperfeiçoamento das instituições. No entanto a contabilidade avaliativa acadêmica já vem sendo posta em questão de forma arrasadora pela contra-expertise de acadêmicos tais como Marilyn Strathern (no caso da Inglaterra), e pode se tornar, à revelia dos avaliadores, uma arma perigosa na mão de direções tecnocráticas destemperadas por mandatos imperiais sem controle dos pares. A pretensa base acadêmica a ser legitimada pela contratação de banca avaliadora de alta qualificação se esvai diante do uso da avaliação feita por uma direção que carece de auto-avaliação e da legitimidade acadêmica que é a rotatividade de mandatos de direção e coordenação. Prática esta que contraria inclusive a história precedente desta instituição de pesquisa histórica, o CPDOC, que sempre teve, no seu passado, mandatos fixos de consenso geral. Se esta instituição quer se mirar nas práticas acadêmicas de excelência, sem dúvida falta-lhe agora a legitimidade da pratica universitária democrática elementar, cuja eficácia é dada pelos contrapesos da variedade sucessiva dos dirigentes bem como da prática de capacitação compartilhada de direção pelos pares ao longo do tempo. Além disso, a presença de instâncias de participação do conjunto dos pesquisadores e professores em atividades de deliberação presenciais, em que a direção presta contas ou se inspira da opinião dos colegas, é sem dúvida uma prática acadêmica que qualquer avaliação da instituição deve levar em conta. Para que inclusive a longa permanência do dirigente, indicado por cima e não pelos pares, não seja eivada de suspeitas de sua perseguição subjetiva a colegas avessos a suas idiossincrasias.
E assim se chega ao paradoxo desta instituição famosa de pesquisa, documentação e ensino de história contemporânea ser palco, aos seus 40 anos de idade, da demissão de uma de suas pesquisadoras renomadas, que fez parte da construção do seu prestígio ao longo do tempo (e que nela está há 40 anos); e feita sumariamente à revelia das demais instâncias de coordenação e às escondidas dos colegas. Ao paradoxo de uma instituição que deposita a documentação da história contemporânea do Brasil, que organiza e conhece as vicissitudes das práticas democráticas e das práticas ditatoriais deste período, e que com base nela produz pesquisa e ensino de qualidade; seja a mesma instituição que se apresenta agora como uma instituição de direção verticalizada e, sob este aspecto, ignorando a construção universitária ou acadêmica destes últimos 40 anos que se distanciou do antigo poder absoluto do catedrático. Além de demitir uma pesquisadora experiente, a direção do CPDOC dispensou da mesma forma também o jovem pesquisador Cláudio Pinheiro, fazendo com isto atemorizar as novas gerações com as quais a instituição procuraria se renovar, o que não parece uma forma recomendada de reprodução acadêmica.
A demissão de Dulce Pandolfi não pode ser silenciada. Como foram silenciadas as demissões de outras pesquisadoras ao completarem 65 anos no auge de sua produção e relevância acadêmica – prática que faz parte de uma concepção eliminatória da idade estreita e de eficácia empresarial duvidosa (limite anterior à que acontece nas universidades federais e estaduais, fixadas aos 70 anos; mais estreita que centros acadêmicos de países centrais que se fixam no entorno dos 65 anos mas que estimulam alguns com mais dois anos, etc. e a contracorrente de iniciativas como as de bolsas sênior do CNPq, de estímulo à retenção produtiva dos mais experientes). A demissão de Dulce Pandolfi, antecedendo caprichosamente o limite de idade arbitrado há pouco tempo pela instituição é uma demissão idiossincrática de uma direção verticalizada e sem interlocução deliberativa com os pares – algo que está longe de uma prática acadêmica minimamente avaliada e consagrada. É um capricho que priva o professor (neste caso uma paraninfa recente de turmas do CPDOC) de finalizar seu curso, suas atividades de orientação programadas, prejudicando a alunos e pós-doutorandos. E é um acinte a toda a geração de colegas e admiradores de Dulce Pandolfi — exemplo de historiadora, professora e cidadã cuja militância e testemunho na luta pelos direitos humanos é um orgulho da história brasileira.

Autor

Martha Moreira

Comentários 22

  1. Jonas Rabello Alves
    9 de setembro de 2013 Responder

    Quanta gente tem medo da verdade. Temos que combater estes pulhas que demitem arbitrariamente uma profissional deste gabarito.

  2. Elizete Ignacio dos Santos
    9 de setembro de 2013 Responder

    Trabalhar com a professora Dulce foi um aprendizado. Apesar da dor e da frustração que sei que sente neste momento, será feliz pois sua história e trajetória e muito maior.

  3. Luiz Carlos Santos
    10 de setembro de 2013 Responder

    Solidariedade a Dulce, e lamentável a esse ocorrido,uma grande
    batalhadora na ciência social.

  4. Luiz Carlos Santos
    10 de setembro de 2013 Responder

    muito triste esse ocorrido

  5. José Geraldo Corrêa
    10 de setembro de 2013 Responder

    Continuamos matando a nossa história de forma irresponsável e pelas próprias mãos de quem, diretamente, também deveria preservá-la!!!

  6. Reginaldo Angelim Frazao
    10 de setembro de 2013 Responder

    Depois não faltam idiotas desinformado alegando que nao vivemos em plena Ditadura.Esta é ainda pior,já que nao é declarada!Brasil merece mesmo o apelido que tem !Mas vamos virar esse jogo radicalmente!Nao sobara pedras sobre pedras!

  7. estela cristina salustio
    10 de setembro de 2013 Responder

    CPDOC envergonha as instituições que um dia foram exemplo de cordura e dignidade!Apio total a Dulce Pandolfi!

  8. Henrique
    10 de setembro de 2013 Responder

    A perseguição política à Prof. Dulce é um retrocesso à época da ditadura militar que não podemos admitir se queremos preservar a Democracia tão duramente conquistada. Reintegração já!

  9. Iracema C. R. Cruz
    10 de setembro de 2013 Responder

    É lamentável todo esse episódio ocorrido dentro daFGV/CPDOC. Na verdade, uma total falta de respeito com a Professora Dulce, cuja trajetória é reconhecida e bonita. Tive a oportunidade de ver algumas de suas palestras e ler alguns textos de sua .autoria que muito me ajudaram para escrever a minha tese de mestrado/ufrj sobre o sindicato dos petroleiros do Rio de Janeiro, que foi fundado por muitos membros do PCB, partido muito estudo por ela. Torço que a Professora Dulce retorne o mais breve possível para o seu ofício, pois ainda tem muito para nos ensinar.

  10. Anônimo
    10 de setembro de 2013 Responder

    Fora Celso!

  11. roberto dàffonseca h.gusmão
    10 de setembro de 2013 Responder

    Absurdo !Uma vergonha ! A profesora tem uma carreira exemplar!

  12. Rosane Coutinho
    10 de setembro de 2013 Responder

    Ainda temos um longo caminho rumo a verdadeira Democracia.

  13. Mario de Oliveira
    10 de setembro de 2013 Responder

    A demissão da Pesquisadora Dulce Pandolfi,na forma como se deu, antecipando o limite de idade, é uma vergonha!
    Quem são os responsáveis por esta medida?

  14. Sonia Maria M. C. de Oliveira
    10 de setembro de 2013 Responder

    Lamentável!

  15. Sonia Maria M. C. de Oliveira
    10 de setembro de 2013 Responder

    Lamentável! Mais uma medida arbitrária que devemos repudiar.
    Meu protesto e minha solidariedade à Dulce.

  16. Eucy Lima
    10 de setembro de 2013 Responder

    Falta de respeito

  17. Sérgio Paulo A. dos Santos
    11 de setembro de 2013 Responder

    É inconcebível uma instituição reconhecida como a FGV ter uma política tão retrógrada com relação aos seus colaboradores. Tive a honra de ser aluno da Professora Dulce e pude atestar a sua capacidade e competência profissional. Lamentável!!!

  18. Adonia Antunes Prado
    12 de setembro de 2013 Responder

    Dulce, grande brasileira, figura humana exemplar, intelectual de respeito, mulher corajosa e coerente,mais uma vez golpeada.

  19. Maria Ines de C. Delorme
    12 de setembro de 2013 Responder

    A que ponto chegamos dentro das academias. Fracasso total de humanidade, de respeito e de compromisso com os profissionais, os alunos e com um saber que se espera vivo, ético, comparti- lhado e constituído com transparencia. Horror a esse tipo de avaliação que julga e pune a revelia com uma ética questionavel ou inexistente, em nome de uma produtividade, certamente, equivocada. lamentavel o qeu aconteceu com os dois professores. Pode e deve haver uma revisão de condutas, ja.

  20. Vitória Lucia Pamplona
    13 de setembro de 2013 Responder

    Protesto e espero sejam revistas estas demissões absurdas.

  21. Leny A. Cavalcante
    14 de setembro de 2013 Responder

    Comentário ao comentário de Reginaldo Angelim Frazao:
    Como nos livros de Elio Gaspari, no Brasil existem -A Ditadura Envergonhada- , -A Ditadura Escancarada- e, por períodos muito fugazes -A Ditadura Derrotada.
    Leny A. Cavalcante

  22. Dulce Tupy
    15 de setembro de 2013 Responder

    Aos 65 anos geralmente os intelectuais estão em plena forma e maduros como os bons vinhos. É repugnante o preconceito contra os idosos e o prejuízo cultural que temos em decorrência da aposentadoria de grandes mestres como Dulce Pandolfi e outros que vêm sendo discriminados no meio acadêmico.

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