De Tunis, Maria Luiza Franco Busse
Jornalista e doutora em Semiologia pela UFRJ
‘Bem-vindos à Tunisia, o pais da revolução’. Desse modo, Salah Forti, presidente da Associação de Mídia Livre da Tunísia, recebeu os participantes do 3o Fórum Mundial das Mídias Livres que integrou as atividades antes a abertura oficial do Fórum Social Mundial . Forti também agradeceu a presença de todos pela ‘contribuição ao apoio à liberdade de expressão’.
Liberdade, aliás,é a palavra-chave do povo tunisino, e a 13a edição do Fórum Social Mundial, que acontece nesta semana, no campus da Universidade publica de El Manar, em Tunis, seguiu a motivação local trazendo o tema ‘Dignidade’, o mesmo que impulsionou a revolução.
Dois anos depois do movimento popular de 14 de janeiro que depôs a ditadura presidida por Ben Ali, a vida econômica só faz piorar, mas o forte sentimento de liberdade demonstra ter ainda muito fôlego para pagar o preço da retração de investimentos que se mudaram para Marrocos e Argélia, da gasolina que teve aumento de mais de 50% e do desemprego que saltou de 18 para 30%.
Do beduíno do deserto, que vive a menos de 120 quilômetros da fronteira com a Líbia, passando pelos pastores e agricultores que convivem com os argelinos separados apenas por uma rua e o posto da guarda dos dois países, ao cidadão urbano da Tunis dos bulevares traçados pelos colonizadores franceses, todos se exprimem do mesmo modo: dizem que as coisas não estão muito bem, mas eles têm a liberdade como principal aliada e por isso esperam que tudo melhore.
Os tunisinos deixam claro que a expressão e a mobilização, agora livres da violência da policia politica de Ben Ali, são as armas capazes de conter qualquer tentativa de reversão do processo revolucionário. Efetivamente, eles estão muito orgulhosos do que fizeram. Dignidade é o sentido que os move. E a noção começa a ser ampliada. Na marcha que tradicionalmente abre o FSM, mulheres tunisinas, com as cabeças cobertas pelo véu muçulmano , carregavam faixa onde se lia que não há dignidade sem desenvolvimento sustentável.
Mas, no momento, a economia não parece ser o motor da historia do povo tunisino. Há promessa de eleições em outubro próximo ,a ser disputada pelos então 111 partidos. Os mais cotados são o islâmico Ennhada, que esta no poder, e seu principal opositor, Dever de Tunis, de Beji Caid Sebsi, ministro do Interior do ex-presidente Habib Bourguiba, que governou a Tunísia de 1957 a 1987 e ate hoje é reverenciado por todos os segmentos sociais.
Em meio ao orgulho popular de estar reconstruindo o pais depois de 24 anos de ditadura, esta o FSM 2013. A previsão é de 70 mil participantes de diferentes partes do planeta. O Brasil, pais de origem do Fórum, está presente com pelos menos 35 organizações, entre elas, Primatas da Montanha, ONG ligada à Escola de Medicina da Universidade Federal de Ouro Preto, Fábrica de Imagens, Ações Educativas (Ceará), Confederação Nacional das Associações de Moradores, Rede Brasileira de Pesquisa em Nanotecnologia, Casa Macunaíma de Fóruns e Ações dos movimentos sociais, Sindicato dos Médicos do Rio Grande do Sul, Instituto Paulo Freire, Departamento de Regularização do Solo da Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo, Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Aripuanã(AM), Sindicato Nacional dos Aeroviários, Central Sindical e Popular onlutas, Teatro do Oprimido, Advogados Sem Fronteiras, Fundação Perseu Abramo e Fundação Mauricio Grabois.
O destino do FSM também é tema de atividade. Desde o racha em 2003, quando alguns fundadores saíram por quererem mais ação politica, a cada ano o Fórum vem se firmando como evento missionário de troca de experiências e debates sobre alternativas ao modelo capitalista – que tem a guerra e o dinheiro como princípio. Mas há vozes dissonantes. Entretanto, pelo que se pode perceber em Tunis, a revolução deu fôlego à proposta que vem prevalescendo. Todos tem algo a dizer, querem se ouvir e estão dispostos a garantir e preserver esse espaço de encontro, apesar de todas as críticas.
 
 

Autor

Martha Moreira

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