No dia 17 de outubro foi realizada mais uma etapa da ação do Ibase no programa Morar Carioca, da Prefeitura do Rio de Janeiro. Desta vez, mais de cem pessoas se reuniram na Paróquia Santa Rosa de Lima, no bairro Jardim América, Leopoldina. Durante todo o dia, divididos em quatro grupos, moradores discutiram dados oficiais sobre seus locais de moradia e validaram informações levantadas até agora no programa pelo Ibase e pelo escritório de arquitetura responsável pela elaboração do plano de intervenção urbanística.
Oficialmente, esta atividade contou com a participação das comunidades Dique, Parque Furquim Mendes, Sossego Alegria (Ficap) e Vila Beira Rio. No entanto, estiveram presentes representantes de outros locais como Terra Encantada, Gringolândia, Nova União, Favelinha, Quebrete e Renascer. Isso se dá porque nem todos esses locais são reconhecidos oficialmente pela Prefeitura ainda. Muitas favelas são divididas, informalmente, em subáreas pelos moradores, mas no mapa da cidade ainda aparecem como um só lugar.

Confirmando os dados oficiais: esgoto, água e lixo
Mais uma vez, assim como havia acontecido nas primeiras rodas de diálogo realizadas, os dados oficiais sobre abastecimento de água e serviço de tratamento de esgoto foram os mais contestados pelos moradores em todos os grupos. Segundo os dados do IBGE, essas são questões praticamente resolvidas nas comunidades, o que os moradores negam. Na verdade, segundo eles, esses ainda são dois dos grandes problemas dessas favelas. Em alguns lugares, nos dias de chuva, o esgoto chega a entrar nas casas, estragando móveis e causando todo tipo de desconforto aos moradores.
O abastecimento de água, assim como o fornecimento de energia, não alcança de forma satisfatória toda a comunidade. O problema é comum e consenso entre os presentes: o uso irregular do serviço. No grupo de Furquim Mendes, Reane Vianna, representante da Secretaria Municipal de Habitação (SMH) explicou que não há como uma tubulação feita para atender um pequeno número de casas atender um número até dez vezes maior. Por isso, o problema da falta de água é comum. Uma moradora confirma o problema, informando que de janeiro a setembro deste ano não teve abastecimento em sua casa, tendo que “buscar água na casa da vizinha”.
O serviço de coleta de lixo também é um problema comum entre as comunidades. Desta vez, a culpa, para os moradores, não parece ser “só” dos seus vizinhos. No grupo de Furquim Mendes, participantes denunciaram que pessoas (ou estabelecimentos) de fora da favela jogam lixo próximo às casas, fazendo uma espécie de “lixão” irregular. No grupo do Dique, participantes relataram, inclusive, a existência de cobras e ratos nos locais de concentração do lixo, trazendo risco aos moradores.
 
Velhas e novas demandas: creche, ciclovia, cultura e profissionalização
Em todos os lugares, moradores de favelas parecem repetir o coro da insuficiência do serviço de creches. Ao ficar confirmada a predominância da mulher como chefe de família, a necessidade do aumento do número de creches fica mais evidente. Para que as mulheres – ao menos aquelas que vivem sozinhas com os filhos – possam sair e trabalhar, é necessário haver espaços onde possam deixar, com confiança, seus filhos bem cuidados.
A novidade na lista de demandas é a alternativa apresentada para o velho conhecido problema do transporte ineficiente. Os moradores, em vários grupos, apontam a ciclovia como uma boa alternativa para a locomoção entre as comunidades e para os bairros mais próximos, como Pavuna ou Jardim América. No caso dos trajetos mais longos, como para o centro da cidade, há mesmo a necessidade de aumentar as linhas de ônibus ou o número de carros por linha. Nos horários de maior utilização, o serviço não atende os moradores.
O desejo de que aumente o número de espaços voltados para a cultura e o entretenimento já havia sido demonstrado  nos encontros dos jovens das quatro comunidades e foi confirmado na Roda de Diálogos. Eles apontaram a vontade de ter uma lona cultural no bairro, além de projetos voltados para o ensino de música, dança, entre outros. A realização de projetos de profissionalização também foi uma demanda dos jovens.
 
Veja ponto a ponto as principais demandas de cada comunidade
 
Dique
–        melhoria no serviço de coleta e tratamento de esgoto
–        melhoria no serviço de coleta de lixo
–        melhoria no serviço de fornecimento de água
–        regularização e melhoria no serviço de fornecimento de energia elétrica
 
Furquim Mendes
–        aumento do número de creches
–        projetos de lazer, alfabetização e profissionalização de idosos
–        melhoria no serviço de coleta de lixo
–        atenção para o problema grave de saúde na comunidade: muitos moradores com tuberculose
–        regularização e melhoria no sistema de fornecimento de energia elétrica
–        construção de uma lona cultural
–        melhoria do serviço de transporte: ciclovia e linhas de ônibus
 
Vila Beira Rio
–        melhoria no sistema de coleta e tratamento do esgoto, principalmente das casas que ficam na margem do rio
–        regularização e melhoria no sistema de fornecimento de energia elétrica
–        ampliação dos pontos de cultura: biblioteca e midioteca
–        pontos de trabalho / projetos de profissionalização
–        melhoria do serviço de transporte: ciclovia e melhora do serviço à noite
–        mudança de região administrativa da Pavuna para Jardim América, que fica mais próximo e é onde utilizam serviços públicos como o de saúde
 
Sossego-Alegria (Ficap)
–        aumento do número de creches
–        melhoria do serviço de transporte: liberação do transporte alternativo (vans, combis e moto táxi)
–        ampliação dos pontos de cultura
–        pontos de trabalho / projetos de profissionalização.

Autor

Martha Moreira

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