Por João Montenegro
texto originalmente publicado na Revista Consciência.net
No geral, a grande mídia tratou o recente caso da ocupação da reitoria da USP por estudantes da universidade como algo que, no final das contas, se resumiu a um protesto pela liberdade de fumar maconha no campus da instituição.
Com isso, os principais veículos de comunicação do país empobreceram um debate que tem lá sua importância social. Lamentável.
O que o conservadorismo e os interesses políticos e econômicos não deixaram transparecer  é que a ocupação da reitoria não foi motivada pela exigência do direto de usar drogas no campus da USP, mas por uma questão ideológica, cuja raiz remonta ao alegado autoritarismo associado à atual gestão da reitoria da instituição, comandada pelo advogado João Grandino Rodas. Vale destacar que o governo de São Paulo é um dos grandes anunciantes de emissoras de TV, jornais e revistas e que Rodas é conhecido aliado do governador do estado, Geraldo Alckmin.
Alunos, professores e funcionários da USP vêm apresentando reclamações quanto a determinadas medidas tomadas pela reitoria, muito criticada por manter níveis mínimos de diálogo com a comunidade local. E, entre as diversas iniciativas contra as quais vêm protestando os corpos doscente e discente da instituição, estaria a manutenção de um convênio com a polícia militar do estado de São Paulo, que prevê a atuação da corporação no  campus para reforço da segurança local. Ou seja, essa era apenas uma das reivindicações dos estudantes, não respondendo, por conseguinte, por toda uma conjuntura que levou à revolta dos estudantes.
 


Imagens dos estudantes mascarados como bandidos rodaram o país:
erro de estratégia dos jovens; malícia e manipulação por parte da mídia.

O grande “problema” é que o estopim para a ocupação da reitoria não foi motivado pelas denúncias quanto aos projetos milionários executados pela reitoria e que não passaram por devida fiscalização, tampouco pelo fato de o reitor Rodas ter nomeado  um de seus assessores políticos e o filho da reitora anterior, Suely Vilela como procuradores da USP, cargos que demandam aprovação via concurso público. O que acabou incitando os estudantes foi uma “dura” policial sofrida por colegas que fumavam maconha no campus.
Isso foi o bastante para que comentaristas da Grande Mídia afirmassem que tudo isso se trata apenas de “um bando de mimadinhos sustentados pelos pais que não têm mais o que fazer”.
Não que os estudantes estejam cobertos de razão. Aliás, talvez tenham pecado por não haverem se manifestado em outro momento ou apostado numa pauta que não pudesse ser facilmente manipulada, abrindo espaço para sua representação como movimento em defesa da não repressão ao uso de drogas – algo que, num país de povo conservador e de baixa instrução como o Brasil, leva inevitavelmente ao repúdio da massa telespectadora.
Mas não é de todo incompreensível o porquê desse momento em específico para o agito. Afinal, ver o amigo ou colega sendo abordado bruscamente pela PM – que já vinha, segundo alunos e professores, há tempos abordando de maneira indiscriminada a população do campus – e sendo levado preso por fumar maconha é algo que gera uma adrenalina a mais no sangue dos jovens.
É preciso, neste ponto, deixar claro que não se está aqui considerando ser correto fumar maconha e exigir não ser punido por isso. A lei proíbe que se fume a erva e, apesar da hipocrisia, inconsistência e obsolescência de tal proibição, estará errado quem o fizer e, por isso, sujeito às sanções penais.
A questão fundamental é que a PM – cuja imagem já é bastante degradada país afora – possui uma estrutura eminentemente autoritária, projetada para o confronto e que, por isso, forma agentes, em sua maioria, truculentos e com baixo nível de educação. Além disso, são mal remunerados e, portanto, desvalorizados. Como freqüente resultado da triste combinação, estão policiais militares que, entre outros delitos, estão mais que habituados a inflar seus injustos salários com propinas, tais como as conseguidas junto a usuários de maconha.
Outro ponto crucial é que a própria atuação da PM dentro do campus da USP não vem sendo pautada pela proteção a crimes contra a pessoa humana, mas, segundo relatos de alunos e professores, principalmente pela coibição, muitas vezes feita de forma violenta e até provocativa, do uso de drogas.
Mais uma vez, registra-se que coibir tal prática não é errado. No entanto, o que se procurou discutir com a ocupação da reitoria foi a prioridade dada pela PM para esse tipo de ação, a maneira como as abordagens vinham sendo feitas e, por último,  a política de repressão ao uso de drogas – que, como o próprio ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, tucano assim como Geraldo Alckmin, já declarou – é uma estratégia ineficaz, dispendiosa e geradora de maiores índices de violência mundo a fora.
Há também outro agravante que faz dessa situação algo ainda mais distante de um simples “chilique de mimados drogados de classe média”: as universidades são, por excelência, um espaço de contestação. Será que, logo ali, na universidade mais tradicional do país, era preciso que o governo do estado, em pleno século 21, colocasse uma tropa de choque da polícia para tirar os alunos da reitoria? E que a universidade siga orientando a atuação de PMs dentro do campus no sentido de priorizar o combate ao uso de maconha?
Isso reflete justamente a batalha ideológica que está no cerne da agora já finda ocupação da reitoria. O que o movimento buscava era uma mudança de postura dos gestores da universidade, para que se comprometessem a dialogar com os professores, alunos e funcionários da instituição antes de impor medidas que afetam diretamente a comunidade do campus, e adotassem maior transparência nos projetos ali executados.
Só mesmo seres absolutamente irracionais invadiriam a reitoria de uma das maiores universidades do país para protestarem pelo direito de fumar maconha sem ser incomodado pela polícia, como se fossem cidadãos diferenciados do resto. Não obstante, ficou fácil para os meios de comunicação passarem a mensagem de que o tão sofrido povo brasileiro está sustentando, via impostos, um bando de maconheiros em uma universidade federal.
Realmente lamentável.

Autor

Martha Moreira

Comentários 3

  1. Zé Mario
    14 de novembro de 2011 Responder

    Lamentável alguem querer defender esses maconheiros.Por que esse bando de maconheiro não vão protestar contra o Estádio do Corinthians que esta´sendo construido com dinheiro público ou proteste contraa corrupção.

  2. BENEDITO
    15 de novembro de 2011 Responder

    A manipulação da mídia brasileira é nogenta, pra não dizer que causa náusea, aliado a isto o fato de maioria de nossa população ser controlada pelos meios de comunicação. Está feito ai a combinação perfeita para alienar o cidadão. O caso da USP, retrata a decadência da administração de nossas universidades, que usam o proselitismo para presentear alguns em detrimento da qualidade do ensino, até quando isso vai persistir?

  3. Nelson Maria de França
    16 de novembro de 2011 Responder

    Pessoal, por favor, paciência tem limites. Essa conversa de vocês tá do começo ao fim meio “fedorenta”. A “grande mídia”? Aquela que os políticos usam para se livrarem diante do povo? Vocês sabem usá-la muito bem, né.

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