Texto originalmente publicado no IHU Online


Arena de Capetown. Sua construção custou R$1 bi e desalojou 4 mil famílias da região.
Crédito: Richard AtUCT/Flickr

Passado um ano da Copa do Mundo da África do Sul, a população do país vive uma grande desilusão. O evento somaria 3% ao Produto Interno Bruto sul-africano no ano passado, volume que ficou em míseros 0,3%.
“Ficou claro que a Copa do Mundo era um veículo para o setor privado lucrar”, afirma Eddie Cottle, do Building and Wood Workers’ International (BWI), federação internacional que reúne trabalhadores da construção civil. Cottle lançará livro no qual analisa as vantagens e desvantagens que a África do Sul teve por sediar a Copa.
A informação é da Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação – ALC -, 17-10-2011.
Ele prevê que o Brasil enfrentará problemas muito maiores do que a África do Sul. “No caso brasileiro, há despejo em massa, muito dinheiro público sendo gasto”, analisa, em entrevista para a Deutsche Welle.
Em junho, sul-africanos da BWI e da rede internacional StreetNet, que reúne vendedores ambulantes, reuniram-se na Alemanha com representantes brasileiras da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e da Federação de Órgãos para Assistência Social de Educacional (Fase) com o propósito de relatar as experiências que trabalhadores recolheram do maior evento futebolístico do mundo.
A África do Sul recebeu 373 mil turistas no ano da Copa, abaixo do que recebera em 2007, quando aportaram ao país 483 mil turistas. O Brasil espera 600 mil turistas para a Copa de 2014, arrecadando 3,9 bilhões de reais desse contingente de consumidores.
A Copa pode gerar ganhos sociais, quando bem conduzida. A África do Sul perdeu oportunidades, arrola o professor Norbert Kersting, da Universidade de Münster, que estuda as implicações desses megaeventos na sociedades.
“Toda a produção de camisas para a Copa 2010 foi feita na China e não na África do Sul, por exemplo. O país-sede poderia ter produzido os uniformes e a indústria poderia ter usado essa chance para seguir no mercado”, avalia.
Outro fator analisado foi a construção de arenas esportivas, que agora são verdadeiros elefantes brancos, risco que o Brasil também corre com a construção de estádios, como o do Corinthians, em São Paulo, sem necessidade, uma vez que existem outras arenas no Estado com capacidade para abrigar jogos da Copa.
O governo sul-africano pretende aumentar impostos para arcar com os custos de manutenção de estádios de futebol, que estão subaproveitados. A arena da Cidade do Cabo custou em torno de 1 bilhão de reais e desalojou 4 mil famílias da região.
“Havia um estádio numa comunidade pobre de trabalhadores, mas a Fifa não queria arena esportiva numa área pobre habitada por trabalhadores. Foi construído, então, um estádio novo”, relata Cottle.
O mesmo alerta parte, no Brasil, de um crítico ferrenho da Copa do Mundo de 2014, o jornalista Juca Kfouri, 61 anos. “Estamos construindo elefantes brancos, reproduzindo o que ocorreu durante a ditadura em um governo democrático, dito de esquerda”, comentou em entrevista para Guilherme Brendler, da Folha de São Paulo.
No Rio Grande do Sul, lei proíbe a comercialização de bebidas alcoólicas em estádios de futebol. Mas se o Estádio Beira-Rio, do Internacional de Porto Alegre, sediar jogos da Copa do Mundo de 2014, essa comercialização será permitida. Explica-se: um dos financiadores dos eventos promovidos pela Fifa é uma cervejaria.
“Quando um país se candidata a um Mundial, ele já sabe que vai entregar a sua soberania. A isenção de impostos, os convidados VIPs, a bebida alcoólica no estádio, tudo isso já está no caderno de
encargos”, afirmou Kfouri.
Na verdade, o jornalista não é contra a realização do campeonato mundial de futebol  em terras brasileiras, desde que seja uma Copa do Mundo do Brasil no Brasil. “Não uma Copa do Mundo da Alemanha no Brasil. Claro que o Brasil pode fazer uma Copa, mas tem que fazer dentro das nossas possibilidades”, defendeu.
Ele exultaria se o Brasil mandasse a Fifa às favas. “Seria uma demonstração de dignidade, de soberania”, disse.

Autor

Martha Moreira

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