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Ignacy Sachs defende protagonismo de emergentes na Rio+20

Por João Peres
texto publicado na Rede Brasil Atual


Ignacy Sachs. Crédito: Alberto Coutinho/AGECOM

O Brasil e a Índia devem comandar o bloco de nações emergentes para fazer da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, em 2012 no Rio de Janeiro, um encontro exitoso no desenho de políticas que conciliem respeito ao meio ambiente com economia e promoção de bem-estar social.
“Vocês têm todas as chances, mais que outros países, para entrar em uma trilha de desenvolvimento socialmente includente e ambientalmente sustentável”, afirma Ignacy Sachs, ecossocioeconomista e professor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris. O pesquisador pontua que o Brasil é altamente respeitado devido à postura internacional e às grandes reservas de matas e de água. O fato de a conferência voltar ao Rio de Janeiro após vinte anos, para ele, é uma demonstração deste respeito.
Sachs entende que as nações do Norte e a China não terão interesse em assumir o papel de protagonistas por diferentes fatores. De um lado, Estados Unidos e União Europeia se veem em meio a um desdobramento da crise financeira internacional iniciada em 2008 que tende a recalcar os “egoísmos nacionais”. De outro, os chineses não deixam claro que tipo de desenvolvimento almejam e que correlação de forças desejam.
“O palco está criado para o avanço dos países emergentes se conseguirem aproveitar a conferência do ano que vem, a segunda cúpula da Terra”, avalia Sachs a respeito da possibilidade de que as nações aproveitem a atual crise, que não é vista como simplesmente econômica, mas inerente à estrutura do sistema capitalista, como uma oportunidade.
Durante seminário promovido esta semana em São Paulo pela Agência Carta Maior, o professor indicou que não há tempo hábil para que a Rio+20 apresente propostas concretas de mudanças. Atingir consenso entre quase duas centenas de nações com interesses tão diversos e em momentos históricos diferentes não é uma tarefa simples no quadro atual, a menos de um ano do evento que deve trazer à capital fluminense mais de uma centena de chefes de Estado. “Deveríamos transformar essa conferência em uma conferência para mapear o caminho, ou seja, dar tempo aos países para planejar.”
Sachs, polonês naturalizado francês, entende que essa proposta passa pela apresentação de linhas gerais e pelo compromisso dos países em apresentar suas metas concretas dentro de dois anos. Esses acordos, avalia, não devem ser obtidos unicamente pelos Estados nacionais, mas precisa ser construído dentro de diálogo com empresários, trabalhadores e organizações da sociedade civil.
A ONU trabalha sobre dois eixos centrais na Rio+20, que reedita a Eco-92, também realizada no Rio há duas décadas. A primeira vertente diz respeito à criação de uma economia verde baseada simultaneamente em desenvolvimento sustentável e erradicação da pobreza. Em segundo lugar, a criação de um quadro institucional a favor do desenvolvimento sustentável.
O pesquisador acredita que, por isso, é preciso realizar em paralelo aos esforços da conferência uma reorganização nas próprias Nações Unidas. Uma das questões é a colocação em prática do antigo anseio de se criar um fundo comum em que cada país destine um determinado percentual do Produto Interno Bruto ao desenvolvimento sustentável. “O caminho passa por um debate que utiliza uma nova geografia, a geografia dos biomas. Não posso ter uma mesma estratégia para Amazônia, cerrado, semiárido, litoral e etc.”
Repetições
Ao mesmo tempo em que desperta grande interesse, o evento do próximo ano suscita uma expectativa que tem, por trás, um receio quanto à possibilidade de frustração. O exemplo mais recente de conversas bilaterais fracassadas em torno da questão climática se deu na COP-15, realizada em 2010 em Copenhague, na Dinamarca. A Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas terminou sem que os maiores emissores de gases que provocam poluição e agravam o aquecimento global quisessem firmar qualquer compromisso que lhes pudesse prejudicar o crescimento econômico.
A primeira Cúpula da Terra, a Eco-92, terminou à ocasião com a Agenda 21, uma série de compromissos em torno do desenvolvimento sustentável, um cenário bastante inovador para encontros multilaterais de caráter global. A implementação desses compromissos, no entanto, nem sempre acompanhou a teoria. Para Sachs, o cenário de 2012 é muito mais promissor para a Rio+20. “A conferência de 1992 aconteceu na contramão da história”, afirma, em referência ao recente colapso do bloco soviético e da ofensiva neoliberal. “Em 2012 estaremos em plena crise e, portanto, em maior credibilidade sobre a necessidade de mudar de rumo.”

Autor

Martha Moreira

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