Quem foi à conferência ‘Cidadania e história’ esperando uma análise sobre as conquistas cidadãs do passado se surpreendeu com o debate entre o professor José Murilo de Carvalho e a ativista do Borel Mônica Francisco. Parte do evento Ibase 30 na Caixa Cultural, a mesa desta segunda-feira (22) enfatizou os desafios que ainda temos pela frente para chegar à cidadania que queremos.
Carvalho, autor do livro “Cidadania no Brasil, um longo caminho”, comparou os avanços nos direitos políticos, civis e sociais e ressaltou que, apesar da expressiva redução da desigualdade social e do arredondamento da pirâmide social nos últimos anos, ainda há muito a ser feito. “Os miseráveis são ainda 8,5% da população, os analfabetos com 15 anos ou mais ainda são 14 milhões, 55% das residencias não tem esgoto. É impressionante como há mundos tão distintos e como ainda há gente excluída”, afirmou.
Para o professor, se nos últimos anos tivemos avanços em termos sociais, houve retrocesso em termos políticos, com a deterioração das práticas políticas evidenciada por constantes denúncias de desvios de dinheiro público. Nesse sentido, “estamos mais democráticos e menos republicanos”, disse ele.
Mônica falou a partir de sua experiência no Borel e disse que os desafios são ainda maiores para os que estão à margem. Segundo ela, cidadania não pode ser vista como serviços de fim de semana ou apenas o direito ao voto. “Os mesmos cidadãos da margem que são convocados a votar são chicoteados no trem lotado”, criticou.
A ativista faz parte de uma rede associativa que busca ampliar a voz dos próprios moradores da comunidade. Mas o diálogo, segundo ela, é complicado. “O Estado não está preparado para lidar com a favela organizada, com a periferia organizada. Para ele, quem está na favela ou é traficante ou é simpatizante do tráfico”.
No final, teórico e líder comunitária partilharam o mesmo diagnóstico. Um desejado porvir da cidadania passa por fortalecer a base da estrutura social e ter um poder que seja confiável e eficiente.

Autor

Martha Moreira

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