Augusto Gazir
jornalista do Ibase
O segundo debate do ciclo “Cidadania e…”, promovido pelo Ibase na Caixa Cultural Rio, foi ilustrativo das mudanças pelas quais passam a chamada sociedade civil organizada e dos limites do Estado para interagir com essas transformações.
O tema da sessão desta quinta era “Cidadania e meio ambiente”, e os conferencistas, o secretário fluminense de meio ambiente, Carlos Minc, e Robson Borges, da cooperativa de reciclagem Eu quero liberdade. Robson substituiu Tião Santos, representante dos catadores de Jardim Gramacho, que não pôde comparecer.
Robson apresentou o movimento do qual participa. Ele faz parte de uma cooperativa de reciclagem cujos integrantes são egressos do sistema penitenciário. Na cooperativa, como ele comentou com acidez, aqueles que a sociedade trata como lixo buscam uma alternativa do trabalho com o lixo.
A cooperativa de Robson se articula com outras, em redes apoiadas muitas vezes por programas oficiais. Na sua fala, Robson foi duro e incisivo, nunca deselegante, nas cobranças a Minc. Cobrou mais apoio e diálogo do Estado para que as cooperativas tenham mais possibilidades de atuação e oportunidades de negócios.
Minc rebateu que o papel do Estado não era organizar o movimento social, que o “getulismo” já acabou, listou ações suas à frente da Secretaria e lembrou o quanto já articulou com sindicatos e representações de trabalhadores.
Ninguém questiona as credenciais democráticas de Minc, a sua militância ambientalista, e nem aqui é o caso de avaliar a sua gestão na Secretaria. O argumento é que as reações do secretário durante o debate não deram conta do desafio que Robson a ele colocava e ao Estado representava.
As cooperativas de reciclagem e de catadores não são uma representação clássica de trabalhadores. Elas não são somente agentes políticos e sociais, mas também econômicos, já que lutam por um novo mercado – na falta de melhor nome – onde a força do capital das empresas não as exclua. Elas buscam ser agentes para uma nova economia.
A demanda de Robson, o desafio por ele feito, é por um Estado atuando num outro paradigma, um paradigma mais voltado ao bem comum. Ele reivindica um Estado que seja um agente positivo na sua rede, mas sem subordiná-la.
É sintomático que a principal luta hoje dos catadores de Jardim Gramacho, celebrizados pelo filme “Lixo extraordinário”, é para que lhes seja garantido a gestão do fundo para a criação de alternativas de renda na região. Do outro lado, sob o paradigma velho, o poder público não aceita que um fundo público não seja gerido por ele.
A próxima sessão de “Cidadania e…” é na terça (16/08). O tema é cultura digital. A chance é grande que essa discussão sobre velhos e novos paradigmas seja abordada. O Ministério da Cultura é hoje criticado por um conjunto de novos atores, organizados e fortalecidos a partir, principalmente, das novas tecnologias. Esses atores querem ser ouvidos, sim, querem ser beneficiários de políticas, sim, mas também querem formular políticas e vê-las reconhecidas pelo Estado.

Autor

Martha Moreira

Comentário 1

  1. Adair Aguiar
    12 de agosto de 2011 Responder

    No cenário atual, os catadores de recicláveis estão de grande forma sendo usurpados pelo Estado. As poucas “migalhas” cedidas pelo Estado vem carregado como algo assistencialista,e não como uma obrigação do Estado. É função do poder público de subsidiar estas iniciativas que visam o desenvovimento econômico e social de uma classe tão massacrada.

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